24 de outubro de 2008

Triste perspectiva

Depois de mais de um século sem significativos conflitos de fronteiras ou ingerência entre paises vizinhos, a América Latina começa a costurar um perigoso cobertor de ingerência, guerra e violência. Bastaram alguns homens irados para que todo o Continente comece a coçar as barbas e a cabeça.
De um lado, povos como os colombianos, que há anos, convivem com uma impiedosa guerrilha, regada a seqüestros e cocaína. O governo responde com igual violência. Do outro lado, os simpatizantes da esquerda ou da direita, outra vez em guerra aberta, ainda que não declarada por território e influência. Entre eles, governos que, com violentas palavras na mídia e, pouco a pouco, passos firmes em direção ao conflito, buscam outras hegemonias e outras geopolíticas.
Queremos novas guerras e guerrilhas no continente? Não servem como lição os conflitos de fronteira na África e os fomentados por pequenos ditadores em busca de notoriedade e espaço para os seus sonhos de hegemônia? O pouco progresso que a América Latina conseguiu para melhorar a vida dos seus pobres será, outra vez, desperdiçado em armamentos, porque pequenos ou grandes ditadores se decidiram pelo confronto? Seus ódios pessoais prevalecerão sobre a paz que, a duras custas, a América Latina gozava nas suas fronteiras? Quem será o próximo inimigo? Qual há de ser a próxima invasão? Em que país. Quem fornecerá o dinheiro e as armas? Que tipo de esquerda ou de direita as comandará? Queremos aqui o quadro do Oriente Médio?
Quem ouve Chaves e alguns de seus admiradores já sabe o que esperar. Com todos os seus limites e com sua verborragia é melhor ouvir o Lula e a diplomacia brasileira. Guerras, invasões e disputas por hegemonia são o que menos interessa ao Brasil emergente de agora. Gastaríamos a estabilidade que tanto nos custou, em adquirir ou fabricar armamentos. Melhor é conversar até à exaustão. Que falem os diplomatas em suas gravatas e silenciem os ditadores com as suas bravatas.

Pe Zezinho scj

Lindemberg, Eloá e Nayara


Foi triste. É sempre triste. Semana após semana lemos ou vemos que um jovem matou o outro, um jovem foi destruído pela fúria de outros. Agora ficamos sabendo que um rapaz de 19 anos começou a namorar uma menina de doze. Três anos depois fez o que fez! Os pais nem sempre concordam, mas, no tipo de sociedade que construímos, é cada dia mais comum que uma menina teime em namorar. Os pais não sabem mais o que fazer. Se proíbem, há tempo quente em casa. Se permitem, o tempo às vezes esquenta lá fora. Não é uma sociedade serena.

O que sabemos é que um rapaz, ou enlouqueceu, ou perdeu o chão por algum distúrbio que se revelou mais do que paixão de jovem. Tem mais a ver com a perda de poder do que com a perda de um amor. O menina ficou adolescente e deve ter descoberto que não lhe servia mais aquele relacionamento de namorado dominador. Já não era mais enamoramento. Era domínio. Ela se abriu para outra possibilidade, direito legítimo de qualquer adolescente.

Pelo que sabemos, ele armou-se de ira e de munição. Não aceitou ser contrariado. Segundo se viu, seu passo foi premeditado. Foi ficando cada vez mais irado e mais acuado. A amiga Nayara bem que tentou negociar. Até voltou ao cativeiro de onde saíra, esperando salvar a colega adolescente. Com mais ela lá dentro, quem sabe ele não mataria a Eloá. Arriscou a vida pela amiga, coisa que alguns jovens também fariam. Mas ele, a esta altura já perdera qualquer lucidez. Aos vinte e dois anos, quis matar duas meninas de quinze usando dos máximos poderes de que dispunha: arma e violência.

A polícia fez o que tinha que fazer. Esperou e quando julgou que o risco era extremo, invadiu. Os jornalistas fizeram o que fazem os que vivem da notícia. Noticiaram e questionaram. Alguns foram longe demais. Talvez a sua maneira de noticiar o fato aumentasse o risco. Mas arriscaram.
Mais uma vez, a população ficou sabendo de jovens que ferem e matam quando pais, namoradas ou irmãos não lhe dizem sim. Está cada dia mais comum. Pode ser a pressão da grande cidade. Pode ser a mídia sensacionalista. Pode ser a religião que falhou. Pode ser o excesso de acesso à informação. Sabem mais, namoram mais cedo, mas nem sempre sabem o que fazer com sua liberdade, com a oposição ou com o conflito. A reação de alguns é a de lobos na matilha ou símios contrariados.

O filme daquele pingüim que perseguiu o outro até à morte sob o olhar impassível de milhares de outros pingüins assusta! O fotógrafo que filmou a cena ajudou-nos a refletir. Mostrou que pingüins são engraçados e simpáticos, mas à vezes surtam. Nossos jovens também. Somos hoje uma sociedade violenta. As maiores vítimas são os adolescentes e os jovens que, ou matam ou acabam mortos.

A religião pode ajudar? A não competitiva pode. Mas a que passa a idéia de que o indivíduo foi feito para vencer, só piora o quadro. Saber perder também é cultura, a menos que consideremos o perdão uma fraqueza! Lindenberg parece ter sido derrotado por não ter assimilado a perda de poder sobre sua ex-namorada, nem a grandeza de perdoar. Não deve ter lido João 6,67!
Pe Zezinho scj
Foto: Foto: José Cordeiro/Agência O Globo

Católicos desafiados

É mais fácil deixar de ser católico do que prosseguir numa Igreja atacada por todos os flancos. Não é complexo de perseguição. É fato. Os motivos? Lemos, vemos e ouvimos todos os dias na mídia.
Óvulo, espermatozóide, blastocistos, embrião,feto, fertilização in vitro, Lei de Biossegurança, células-tronco embrionárias, céluas-tronco adultas, aborto, embriões desperdiçados, pesquisas, bioética, clonagem, , ser humano, pessoa, camisinha, pílula, ato criador... tudo isso é fonte de conflitos.
Acusam-nos de não entender estas coisas e de super-simplificar o que é complexo. Ignoram nossos cientistas e estudiosos e acham que só os cientistas deles entendem de vida. Não acham que um cientista possa ser católico. Decidiram mostrar os católicos como inimigos do progresso da ciência e favor da vida. Comparam-nos aos católicos do tempo de Kepler, Copérnico e Galileu Galilei na questão da astronomia. Não admitem que possamos ver tão ou mais longe do que eles…
Virou guerra de mídia. Vence quem mais convence. A verdade fica em outro departamento. Cada um com a sua! Mas que vençam no parlamento os que mais provarem que é preciso favorecer o aborto, a pesquisa com embriões e o desenvolvimento dos novos achados.
O tubo de ensaio outra vez desafia a fé. Quem crê no criador e o vê como o dono da vida admite melhoria da vida, mas não às custas de sacrificar vidas que já começaram. Então os outros dizem que aquele pequeno ser em formação ainda não é humano. A Igreja diz que é.
É, não é, é não é... Concepção, contracepção, gestação, interrupção, inferência, rejeição, extração, intervenção, aborto terapêutico, aborto, abortivos, contraceptivos, pílulas, tudo se torna assunto para acusação, discussão e debate. Até quem nunca leu senão artigos esparsos e apenas ouviu alguém na televisão ousa chamar de ignorante o cientista ou médico católico que se debruçou sobre o assunto por 30 a 40 anos. De repente o telespectador irado sabe mais do que cientistas de 70 anos e 40 de estudos de biologia e bioética.
Eles querem liberalizar e nós queremos que nesse assunto de vida não se vá a ponto de matar para salvar. Eles dizem que não é morte de um ser humano. Nós dizemos que sim. É a guerra dos embriões. Eles querem o direito de usá-los em favor de outras vidas. Nós dizemos que vida concebida é sagrada. É a guerra do sexo. Eles dizem que toda forma de amor é válida. Nós dizemos que não e estabelecemos limites.
A sociedade é democrática. Não tiramos deles o direito de falar. Não aceitamos que tirem o nosso. Nem nós os ofenderemos, nem eles nos ofenderão por conta de um ser que ainda não nasceu. Que falem. Nós também falaremos!

Pe Zezinho scj

13 de setembro de 2008

A Lei e a Prece

Faz muito tempo. Foi nos anos setenta. Eu lia, para uma conferência para pais e filhos num grande colégio, -coisa que já fiz muito e talvez volte a fazer, porque as acho libertadoras-, lia e preparava uma reflexão sobre os dez mandamentos. Estava em Deuteronômio 5, 1-21. Fizera as primeiras anotações sobre os dez mandamentos, quando tive que sair para atender um telefonema. Ao voltar, o vento havia virado as páginas e eis que me encontrei em Mateus 6, 9-13. O texto indicava também Lc 11,2- 5 . Fui lendo, encantado com a semelhança de temas. De repente, veio-me o estalo: - “Isto. Jesus ensinou a rezar os dez mandamentos”.
Naquele mesmo dia escrevi o paralelo que uso até hoje em posters, escritos, missas e shows e que muitos padres e educadores também usam, pedindo minha licença. Ora, não devem pedir a mim e sim a Jesus, porque o paralelo veio dele. Eu apenas lhe dei uma forma didática! Além disso não fosse aquele vento eu nunca teria descoberto que o Pai Nosso é uma resposta orada de Jesus aos Dez Mandamentos do Pai. Venham comigo !

(1) Amar a Deus sobre todas as coisas / (01)Pai Nosso que estais no céu

(2) Não desrespeitar o seu santo nome / (2) Santificado seja o vosso nome

(3) Reservar para Ele um dia especial / (3) Venha a nós o vosso reino

(4) Honrar pai e mãe / (4) Seja feita a vossa vontade na terra

(5)Não tirar a vida / (5) Assim na terra

(6) Não tirar a pureza da vida / (6) como no céu.

(7) Não tirar os bens do outro / (7) O pão nosso de cada dia nos dai hoje

(8) Não tirar a honra e o bom nome do outro / (8) perdoai-nos as nossas ofensas e nós perdoaremos a quem nos ofender

(9) Não cobiçar alguém amado por um outro / (9) Não nos deixeis sucumbir ás tentações, mas livrai-nos do mal.

(10) Não cobiçar os bens do outro / (10) Vosso é o poder ...


Se nunca nos ensinaram isso antes, mergulhemos nessa oração de Jesus.
Resume a lei de Deus e a transforma em prece obediente!

Me dá um minuto, pai!

Oi, pai! Vou roubar um minuto do seu descanso. Senta aí, e me ouve. Vou dizer o que eu penso de você e você vai ter que me ouvir, como eu às vezes tenho que ouvir os seus sermões, que às vezes eu acho que não mereço e às vezes até acho que poderiam ser mais pesados! Vou dizer que pai você tem sido nesta casa, mas não se preocupe. Vou pegar leve!
Sei de muitos filhos que gostariam que os pais lhes dessem mais tempo e chegassem mais perto deles. Não se sentem amados nem compreendidos e há uma certa mágoa no coração, quando falam dos seus pais. Alguma coisa não deu certo entre os dois e ele foi embora viver com outra. Em muitos casos, ela, com outro.
Não é o meu caso. Vocês dois se entendem, se querem, me aceitam e eu compreendo que nem sempre você pode me dar tudo o que eu peço, quero ou preciso. Sei da sua luta por nos fazer felizes e sei que você não é um super homem. É meu pai e cuida muito bem de mim. Você é um homem que sabe amar muito bem!
Sabe aquele espermatozóide que encontrou aquele óvulo da mulher que você amava e ama até hoje? Pois é, pai, ele se fez pessoa e hoje tem treze anos. Ontem a vó me falou da alegria que foi para a mamãe e para você a notícia de que eutinha acontecido. O vô disse que, quando soube que eu nasceria, você abraçou a minha mãe e a levantou até o teto, correu para o quintal e deu três cambalhotas. Não perguntou se seria homem ou mulher. Telefonou para seus pais e amigos e gritava que agora já era pai e Deus lhe dera a graça de se multiplicar. Exagerado como sempre!
Pois é, pai. Eu também tenho vontade de dar umas cambalhotas e gritar que tenho mãe maravilhosa e pai espetacular. Tenho o maior orgulho de vocês dois. Vocês são bons. Vivem um pelo outro e pelos seus dois filhos: seu guri e sua guria. Vocês são pai e mãe nota dez!
É claro que às vezes a gente não se entende, eu levanto minha voz, discuto e grito que vocês não me entendem, você faz aquela cara de pai chateado que não vai aceitar desrespeito, depois eu peço desculpas porque meu temperamento às vezes me vence. Eu quero mostrar quem sou e você tem quer mostrar quem manda em casa. Você vence e eu perco. Fazer o quê, se ainda não cheguei à sua maturidade? Mas eu chego lá, pai! Sou lutador como você!
Apesar das nossas brigas porque eu quero e você não quer; apesar dos meus que-é-que-tem-pai? eu quero que saiba que entendo e quero sua autoridade. Eu sei que às vezes você é exigente porque quer me formar para a vida que eu aind anão saquei como é. Tenho treze anos, né pai. Sei muita coisa, mas é claro que não sei o que você sabe! Tenho colegas que fazem o que querem e agem como se o pai não significasse nada para eles e para elas. Eu não posso dizer o esmo. Seria mentira. Você se importa comigo e eu como você. Você me quer bem e eu quero você bem!
Amo você e amo a minha mãe que você, brincando comigo, diz que, primeiro ela é sua. Eu deixo, pai! Eu preciso dela e você também precisa. E acho que ela também precisa de nós três quando se aninha no seu peito e puxa a gente para o colo dela.
Pensando bem, eu entendo você, pai! Você sempre quis ser pai e, pelo visto, sempre vai querer. E nós realizamos seu sonho. Mas a recíproca também é verdadeira. Do ano passado para cá, depois que o Juliano morreu com um tiro no rosto, disparado por um bandido na porta da escola e o pai dele deu aquele show de paternidade, eu entendi melhor o que é criar e chorar por um filho. Admirei o pai dele. Homem forte, pai!
Não sei se isso lhe fará bem, mas quero que saiba: -Depois de ver você em ação, ficou bem mais claro para mim a existência de Deus e o fato de ele ser Pai de tudo e de todos. Quero sempre repetir a palavra “pai!”, quando falar sobre você ou com você.
Ter nascido de você e de mamãe e crescido com você por perto, me faz um bem enorme! Às vezes eu rezo por meus amigos que não tiveram a mesma sorte que eu tive. Espero que, do jeito deles, acabem perdoando e reencontrando seus pais, e ou alguém que os trate como filhos.
Quando a nós aqui em casa: que seja assim por toda a nossa vida..!
´Tá aí o meu discurso, pai! Passei do minuto que lhe pedi, mas acho que valeu a pena. No dia dos pais, eu, que já virei adolescente, e adolescente não gosta muito de nhem nhem nhem e abraço de pai ou de mãe na frente dos amigos, vou vencer minha resistência e te fazer um carinho. -Ave César, tua prole te saúda! Toca aqui, pai! Você é super-mega-utlra-plus-hiperdemais!
E que Deus te abençoe muito, viu?

Pe Zezinho scj

18 de agosto de 2008

Quando os outros se convertem

Tenho sobrinhos freqüentando três ou quatro igrejas diferentes porque seus pais fizeram a opção diferente do catolicismo. Alguns e algumas estão voltando, outros permanecem lá, onde formaram a sua fé. Há um ou outro que recentemente foi embora do catolicismo.

Eu sou padre católico, prego para multidões, mas não brinco de dono de almas ou consciências. Quero que meus sobrinhos sejam felizes e tenham com Deus um relacionamento sadio e sincero, mesmo que eu discorde deles. Eles sabem como eu pratico meu catolicismo, sabem como os católicos da família praticam o seu e terão que fazer as suas escolhas praticando também em suas igrejas uma fé serena e sincera.

Pelo menos entre nós não tem havido brigas de fundo religioso, quando nos encontramos há um grande respeito pela fé que cada um seguiu e há uma admiração pelo que há de bom nas igrejas um do outro, embora haja também discordâncias. Mas essas discordâncias nunca nos levaram à discórdia. Acho que podemos dizer que somos uma família ecumênica.

Anos atrás surpreendeu-me uma das minhas sobrinhas, a Adriana, com a afirmação de que estava estudando o catecismo católico e que pretendia torna-se católica e que sua filha, menina ainda, tinha aderido ao catolicismo e queria seguir o catolicismo. Observei-lhe que a sua mãe tinha sido católica e que tornara-se metodista e seu pai era metodista desde sempre. Como ela ficaria com isso? Inteligente que só ela, disse:

- Da mesma forma que minha mãe lidou com a mudança de religião dela e parece que foi feliz e da mesma forma que meu pai achou que podia conviver com uma pessoa que mudou de religião. Ele terá que aprender a conviver com uma filha que optou por outra igreja e comigo. A consciência é soberana.

De conversa em conversa fiquei sabendo da sua admiração pelos santos católicos porque ela acredita que o sangue de Jesus realmente salva e o céu está cheio de santos. Seu carinho por Maria, a mãe de Jesus, que ela sentia que na Igreja Católica é muito mais citada e valorizada; seu amor pela eucaristia e também o valor que ela dava aos sacramentos e a confissão. Estes e outros motivos a levaram a procurar uma igreja, a preparar-se e a pedir a adesão da Igreja Católica, sabendo dos defeitos e falhas que há na nossa igreja, como sabia dos defeitos e falhas que havia na sua. Seu marido é um sereno adepto do espiritismo. Nem discussões nem crises. Um não força o outro. Nunca a vi falar mal da igreja em que foi formada, como também não ouvi sua mãe falar mal da igreja católica onde fora formada, nem jamais fui desrespeitado por meu excelente cunhado metodista.

Opções nascidas no recôndito da alma costumam ser bem mais serenas. Dificilmente descambam para o fanatismo. Quem muda quer ser mais ele mesmo e não mais do que os outros.
Tenho acompanhado a caminhada da minha sobrinha sem interferir, até porque, por respeito a mim, ela buscou orientação de outro padre. De vez em quando lê minhas matérias e meus artigos e concorda ou discorda, mas está se tornando uma católica cheia de perguntas e de respostas. E eu oro para que suas convicções se fortaleçam, mas não brinco de querer fazer alguém católico do meu jeito. Se ela negasse algum dogma católico, eu teria que explicar-lhe e deixar que decidisse, mas até o momento não a vi fazer isso. Então, fico feliz de ver o seu crescimento, suas dúvidas, suas interrogações. Ela é uma das pessoas que me levou a escrever este livro. Adriana e sua linda filha e seu excelente marido que tem respeito pelo catolicismo, mas tem o seu caminho próprio de espiritualidade.

Esses dias disse com clareza e afeto a um sobrinho que estuda medicina que não iria à sua formatura se soubesse que ele defende a prática do aborto. Fui radical. Ele riu. Sabe que como pessoa e como padre optei pela defesa da vida, sobretudo a mais fragilizada. Não; eu não me considero um iluminista, nem fundamentalista, nem exclusivista, nem excludente. Tenho fé e, se dependesse de mim, gostaria que o mundo inteiro fosse católico, mas não depende de mim. Deus é que é o Senhor das consciências e é ele quem sabe o que espera de cada filho e como chamará e motivará cada um.

Não pretendo usar de nenhum truque para tornar alguém católico. Mas, se uma pessoa quiser se tornar católica, tentarei mostrar-lhe alguns aspectos do catolicismo que me encantam e pelos os quais nele permaneço. Sei que outras pessoas de outras religiões também irão para o céu e que também conhecem Jesus e também têm perguntas e dúvidas como eu.

Sou daqueles que insistem que se pode ver a cachoeira de muitos lados e de muitas colinas e sei que a descrição será sempre diferente, mas podemos todos beber da mesma água, porque se trata da mesma cachoeira. Visão é uma coisa, fé é outra. O telescópio nos Estados Unidos onde eu vi os anéis de Saturno era maravilhoso, poderoso; quando tornei a ver os anéis de Saturno no telescópio, no Brasil achei maravilhoso, poderoso. Eram dois telescópios diferentes, à distância de quase dez mil quilômetros. No entanto, estávamos vendo os mesmos anéis de Saturno com condições atmosféricas diferentes. Continuei convicto de que em todos os telescópios pelos quais olhei para ver as estrelas as visões embora diferentes, mostravam a mesma realidade. As conclusões nossas é que às vezes podem ser outras.

Então, quando alguém que lê a mesma Bíblia que eu leio e conclui diferente, eu respeito; posso até discordar, mas respeito. E, quando ele quer me impor a sua leitura de Bíblia e a sua visão, tiro os meus óculos, ponho nos olhos dele e digo:

-Este é o instrumento pelo qual eu vejo bem. Você consegue ver bem por ele?

Faço, então, entender que meus óculos me ajudam a ver bem, porque servem para a minha miopia. Os dele não servem para a minha, nem os meus para a dele. Então, que ele trate de achar os seus óculos e respeitar os meus, porque eu respeito os dele. Com a Bíblia é a mesma coisa. Não venha brigar comigo por causa de suas versões e traduções, porque eu já li provavelmente os mesmos livros que ele leu e ainda outros; não me venha gritar do lado de lá que eu do lado de cá da minha colina não posso ver direito a cachoeira; eu sei o que estou vendo e, se ele acha que está vendo muito, palmas para ele, mas respeite a minha luneta, a minha colina, os meus óculos, a minha visão e a minha interpretação. E, se nós dois soubéssemos nadar nas águas puras que vêm da cachoeira, seria bom que fôssemos beber juntos da mesma água, bem no centro do rio que ela forma. Aí, veríamos o que é anunciar e beber das águas eternas.

Só porque ele fez uma praia confortável do lado de lá do rio dele isso não significa que suas águas são mais limpas; só porque eu fiz um pequeno dique do lado de cá do rio não significa que as águas do meu dique são mais limpas; são as mesmas águas. Mas ambos podemos sujar o nosso lado das águas; e a pior sujeira que se pode fazer com as águas eternas é alguém apossar-se delas e dizer que só ali é que existe água de primeira qualidade.

Chego a sentir pena de certos pregadores que, para fazer discípulos para Cristo, primeiro os trazem para si, tirando-os dos outros. Vão buscar ouvintes entre os ouvintes dos outros. Ao invés de pregar a fé, a tolerância e o diálogo, pregam uma certeza que ninguém pode ter porque o justo vive da fé; e levam os fiéis das outras igrejas e da sua, mas de outros movimentos, a acreditar que só ali se encontra a graça de Deus.

São cristãos de coração muito grande, mas de mente estreita. Fé, para ser boa, não basta ser generosa; também tem que ser inteligente e compassiva, porque, se não o for não conseguirá ser nem mesmo dialogante.

Pe Zezinho scj

A reação de Paulo

A REAÇÃO DE PAULO
Muitos lembram a queixa de Paulo contra os cristãos que discutiam para ver quem era de Paulo, de Pedro ou de Apolo. Não queriam saber de mais nada, nem mais ninguém. -Eu já ouço Apolo! Porque tenho que ouvir os outros? Já tenho Paulo! Porque tenho que ouvir os outros? Já tenho Cefas! Porque preciso ouvir ouros apóstolos? Basta-me Jesus e Pedro. Bastam-me Jesus e Apolo. Esquecem-se de que a palavra Igreja vem de Eclésia, assembléia. Esquecem de que católico vem de cat-holou, aberto, para todos. Esquecem os milhares de documentos, de escritos dos santos e dos papas, dos “padres da igreja” e de tantos teólogos luminares. Passam por cima de tudo isso, vão lá e pregam a palavra de um só padre ou reverendo, como se ele tivesse toda a sabedoria da igreja para lhe oferecer. Suas estantes praticamente quase não têm nenhum livro de teologia de outros caminhos da igreja. Só valem os do grupo deles, sua discoteca só tem as canções do grupo deles e ainda assim querem ser levados a sério. Parecem drogaria com um só tipo de remédio, perfumaria com um só tipo de perfume, ou supermercados com apenas dois ou três tipos de alimento. E se magoam quando alguém os alerta para a necessidade de se aprofundarem e de estudarem mais. Talvez achem que não precisam. Não entendem que não é preciso ser doutor para ser estudioso. É preciso ser estudioso para ser cristão ou pelo menos pregador da fé cristã. Ninguém tem que ter um doutorado, até porque grandes escritores como Karl Bart não tinham o doutorado.
Durante muito tempo os pregadores da fé não freqüentavam universidades. Elas não existiam, mas aprendiam uns com os outros. Estudavam com mestres bem versados. E não ouviam apenas um. Teólogos são necessários e devem ser lidos. Todo o cristão que se presa deve ler mais os teólogos e não apenas os do seu grupo. Se quiser um catolicismo mais apolíneo e menos dionisíaco, vale dizer , mais racional e menos emotivo, menos de redoma ou de trincheira e menos bunker, é melhor que leiam os outros pensadores da fé.
A luz de Deus, como a luz do sol, é difusa. Não está apenas na vela ou no holofote do seu pregador preferido. Seguramente, ele sabe menos do que os outros teólogos que você nunca leu. Aplique isso a mim também, que sei muito, muito menos do que eles. Por isso não me siga. Se ler meus escritos, faça o que faço há muitos anos: eu leio os livros dos outros pensadores, mesmo que discorde deles.

Pe Zezinho scj