2 de julho de 2009

O frágil e poderoso Michael Jackson

Falar de mídia sem falar deles seria omissão. Falar deles na mídia, sem falar de limites seria ingenuidade. Brancos ou negros, são nomes que marcaram época, alguns desde a infância. Judy Garland, Frank Sinatra, Marilyn Monroe, Elvis Presley, Os Beatles, Madonna e Michael Jackson ganharam fortunas com a beleza, a voz, com a cintura e com os pés. Deixaram o seu recado. E pagaram um alto preço pelo caminho que trilharam.

Mas os críticos são unânimes em dizer que Michael Jackson na era digital de altíssima tecnologia, foi o mais expressivo e o mais revolucionário de todos. Tornou a música visual, mas do que Elvis que a tornou corporal. Todos foram rebeldes, todos deixaram suas marcas, e alguns deles tiveram vidas e mortes trágicas. Não seria exagero dizer que a fama os matou. É preciso ter força interior e um projeto de vida maior do que a fama e a mídia para derrotá-las. Mídia e fama são como tsunamis. Avolumam-se e engolem quem não sabe dos limites ou das margens. Não tem para onde fugir.

Michael Jackson foi mais uma das vítimas da falta de limites e margens da mídia. No palco, ele foi poderoso. Buscava o melhor e o bem feito. Profissionalíssimo, era um perfeccionista. Não havia erros. Nas finanças e na mídia, imbatível até que o dia em que começaram a lhe cobrar o preço de sua não conformidade com seja lá o crime de que o acusam. A justiça diz não ter achado provas.

Forte na arte, na vida era de uma fragilidade que dava dó. Quando morreu, a 25 de junho, com o médico ao lado, supostamente de overdose de remédio, tinha dominado, como nenhum outro astro jamais o fizera, as técnicas da mídia. Daqui a vinte anos ele ainda soará inovador e criativo. Ninguém melhor do que ele conjugou o sonoro com o visual. O menino punido pelo pai, pressionado até à exaustão para ser perfeito tornou-se um dos maiores artistas de toda a historia humana. Teve os instrumentos e fez uso deles. Chegou a quase 2 bilhões de pessoas.
Cantor e dançarino de vastos recursos, ele mudou a mensagem do corpo e recriou a dança popular. Mereceu o título de artista pop. Mercadejou e mercantilizou bem. Fez o mundo dançar. Encarnou a festa do corpo e do som. E ele sabia disso! Dominava os passos, o som e os ritmos, mas parecia não ter domínio sobre sua corporeidade: não se aceitava, embora usasse o corpo de maneira esplendida. Mexeu com ele e com o corpo de bilhões de pessoas, mas acabou, também, mexendo demais no próprio corpo. Tanto interferiu que o deformou. Na época do botox e do silicone, sirva de exemplo o que se deu com ele. Mas, é conselho que o desespero pela estética mais do que a busca da ética não será seguido. Não importam as conseqüências. Quem persegue o corpo perfeito acabará injetando substâncias químicas nele. O preço? Pagam o que for preciso para por alguns anos desfilarem como reis e rainhas da era da estética... Michael Jackson disse que tinha motivos. Respeitemos sua angústia, mas lembremos aos que acham ter motivos que, mais cedo ou mais tarde, o corpo reage.

Dele se pode afirmar que, se soube atuar com o corpo, não soube situar-se com ele. Festejou a vida, mas não soube vive-la. Quis dela mais do que a vida pode dar. Era figura altamente controvertida. Processado, tido como vitima inocente, às vezes visto como monstro, julgado à revelia pela mídia que antes o exaltara, inocentado, explorado, perdeu parte da sua enorme fortuna para resolver seus gigantescos problemas.

Foi anjo? Foi demônio? Nem um nem outro, Foi um frágil ser humano que não resistiu ao peso da indústria do espetáculo e da fama. Fez enorme bem, e nisso parecia São Francisco. Acusaram-no de haver feito irreparável mal. E nisso o viam com um jovem Rasputin. Mas foi inocentado. A justiça não tinha provas. Morreu dizendo-se inocente. Uma parte da mídia o odiava, a outra o amava. Assim, o povo.

Vendeu mais de 700 milhões de álbuns. Nunca ninguém alcançou isso na história do espetáculo. Se os Beatles se proclamaram mais famosos que Jesus, ele foi mais famoso do que os Beatles. Daqui a 2 mil anos veremos o quanto resistirá esta fama. De qualquer forma, Michel Jackson ensinou três gerações mais a dançar do que a pensar. Passou pelos avós, por filhos e por netos. Será lembrado nas enciclopédias como alguém que mudou a historia do corpo, do canto, da dança, do som, do vídeo e do espetáculo. Veio para mexer e mexeu com gerações. Mas pagou altíssimo preço pela opção que fez. Perdeu a liberdade. Nunca pode ser ele mesmo. Não podia sair de casa a não ser com guarda-costas. Não sabia não ser e também não sabia ser ídolo. Queria ser simples, mas não lho permitiam. O show tinha que prosseguir.

Quando criança, o pai lhe proibia quase tudo e ele era obrigado a ensaiar exaustivamente. Quando adolescente, a fama o mantinha isolado. Isolado, morreu depois de ter criado e vendido um parque onde ao menos podia viver suas fantasias. Nos últimos anos, poucos viram o seu rosto. Poucos conhecem o rosto de seus filhos e o de sua segunda mulher. Talvez seja melhor assim.

Michael Jackson é mais uma das grandes vitimas dos barbitúricos, da solidão, da fama e da bilionária indústria do espetáculo. A fama é um trem e quem quiser carona no vagão especial, que pague o preço! E quando mais perto da locomotiva estiver o vagão, mais caro o preço. Mas o desejo de ser aplaudido é tanto que pouco se dão conta da fatura que terão que pagar. Serve para crentes e para não crentes. Lembremo-nos de Marilyn Monroe, de Elvis Presley e Michael Jackson, mas lembremo-nos também de Jim Jones e da Freirinha do Dominique-nique-nique... Elvis era evangélico, Michael tornou-se muçulmano, Jim Jones fundou uma Igreja messiânico-pentecostal e se matou depois de envenenar 800 do seus fiéis. A Irmã Sorriso deixou o claustro para morrer suicida ao lado de sua companheira. Em algum lugar do caminho a religião parece não ter ajudado nem a um nem a outro.

Celebridade nem sempre rima com felicidade! Vem tudo com juros extorsivos. Ele tornou-se um ícone e ícones acabam guardados a sete chaves. As chaves que o isolaram do mundo foram muito mais do que sete; e tão cheias de segredos impenetráveis eram que acabaram por jogá-lo numa redoma. Cantou muito, dançou muito e quase nada falou. Morreu sem ter se explicado a si mesmo e ao mundo.

Deus o entende. Que o maior artista dos últimos tempos e, talvez, de todos os tempos pela repercussão que alcançou, descanse em paz, depois de ter sido ouvido e visto por dois em cada 6 seres humanos do planeta. Ele e Elvis Presley e Marilyn Monroe, têm muito a conversar lá, onde agora estão. Morreram de overdose. Não estavam felizes. Tinham tudo, mas não tinham a si mesmos. Jesus alertou para isso. De que adianta alguém ganhar o mundo inteiro se perde a sua identidade? (Mt 16, 26)

Neste mundo eles interpretaram o povo, a mídia e as aspirações e loucuras do seu tempo, mas, depois que caíram nas mãos da implacável indústria do espetáculo, papel assinado, não tiveram mais como ser eles mesmos. Havia uma voz, uma canção, um charme e um corpo a ser vendido... Há um tipo de mídia que mata, a curto e em longo prazo. Se o cantor não sabe quando parar a mídia também não sabe: suga-o até à ultima gota. Michael Jackson virou, desde criança, produto de consumo! Se ele quis isso, nunca saberemos. Só sabemos que foi levado a isso e não soube dizer não. Feliz de quem o consegue. A palavra é “limite”.

Padre Zezinho scj

23 de maio de 2009

Em busca de milagres

Parece estar no DNA do ser humano. E vem desde a mais tenra infância. Quando não consegue, o bebê chora, esperneia, grita, erguer as mãozinhas e olha impotente na direção de quem pode. Arrebata o colo dos pais ou da babá. Basta chorar um pouco mais e aumentar o tom do choro…

Muitos de nós somos assim pela vida afora, embora não gostemos de quem nos lembra isso: eternas crianças pedindo o socorro de Deus para o que não temos como conseguir com os recursos deste mundo. Alguns nem fazem o esforço. Ficam lá sentados, a chorar sua impotência, até que Deus os tome no colo. São manhosos na sua fé. Poderiam levantar-se e tentar com os recursos que já possuem, mas preferem pedir intervenção do céu. E não falta quem ofereça tal ajuda em forma de milagres torrenciais com hora de ata e templo marcado…

Vem de longe na humanidade a busca pelo milagre. Distinga-se, porém, entre o que realmente precisa da intervenção de Deus, porque já se esgotaram todos os recursos e discursos da medicina e do saber humano e o que nem passa pelo consultório ou pela farmácia, porque um pregador garantiu que lá, naquele templo, domingo às 15,15h, haverá explosões de milagres e até duas ou três ressurreições.

Há os anunciadores facilitadores da possível graça, do possível milagre porque é Deus quem decide que opera ou não. E há os facilitadores que têm no depósito do armazém da fé o milagre que o freguês precisa. Não há nada que não possa ser chamado milagre. Basta teatralizar um pouco mais. Então a dor de dente, de unha e de cabeça que se curam com aspirinas, viram milagres naquela tarde. Lá se exorciza até demônios da diarréia, da dengue ou da unha encravada. Se há quem acredite porque não chamar de demônio o que dói naquela pessoa sofrida e carente? Além disso, se ela não for curada sobra sempre o recurso de lembrar-lhe que faltou fé do lado de lá e não do lado do púlpito…

Milagre demais é como colo demais: um atrofia as pernas e o outro atrofia a fé! Mas, consoante (Marcos, 12,40). Vai ser cobrado muito mais não de quem busca o milagre e sim de quem faz uso dele para arranjar mais um adepto. Milagres existem, mas são como sementes. Com o tempo se saberá se foi plantio ou se o semeador arriscou para ver se pegavam!

Padre Zezinho, scj

22 de março de 2009

Um estupro e duas mortes

O assunto acirrou preconceitos, ódio e agressões. Mas fatos são fatos. É tão anormal deturpá-los ou reduzi-los, quanto fugir deles. De um lado, uma inocente menina de nove anos que, por estupro de um padrasto desqualificado, engravidou e gerou dois fetos indesejados. Prenda-se e puna-se o padrasto salve-se a menina vítima! Os responsáveis teriam que fazer tudo para ajudá-la, menos matar. Matar é proibido por lei moral e jurídica aos católicos e aos brasileiros, embora os juízes e o congresso brasileiro tenham decidido, nestes últimos anos que, em dois ou três casos excepcionais, se possa permitir que uma vida humana em fase inicial seja sacrificada em favor de outras vidas. Foi o que houve no caso da infeliz menina de 9 anos. Na primeira semana de março de 2009, o assunto ganhou as manchetes. Entre os dois fetos de quatro meses que ela nem sequer entendia porque, mas levava, optou-se pela pobre menina estuprada que já terá problemas suficientes por toda a sua vida. Até o presidente da república achou certo. A gravidez foi interrompida. Milhões de brasileiros diriam e fariam o mesmo. Foi decisão compassiva. Mas esta decisão compassiva esbarrou em outra que também teria que ser compassiva. Interrompeu a vida de dois futuros seres humanos indesejados, porque nascidos de um ato de violência. Tinha a menina o direito à inocência e à vida? Tinha. Tinham os dois fetos o direito de viver? Milhões de brasileiros, inclusive os cristãos, disseram e diriam que não.Aqui começa o conflito jurídico, social, político e religioso: matar os que ainda não vemos para salvar de um terrível sofrimento alguém que já vemos e conhecemos. Receio que a maioria dos pais e filhos brasileiros faria isto. No mundo, cerca de 50 milhões de fetos morrem anualmente exatamente por isso. Estão no ventre errado e na hora errada. Quem os concebeu não os quer ou não tem como gestá-los. No Brasil, fala-se em 1 milhão. A verdade é que o mundo não quer todos os bebês que gera. Entre o “não sou obrigado a gerar” e o “você tem que gerar” entra a magna e explosiva discussão do aborto. É a morte conflituosa de um ser humano no seu estágio inicial. Jesus manda atar uma pedra de mó ao pescoço e jogar ao mar alguém que faz o que fez aquele padrasto. É mais do que excomungar. Simbolismo ou não, a fala mostra a gravidade do estupro. (Mt 18,5-6) E qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta, a mim me recebe. Mas qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar. Ai do mundo, por causa dos tropeços! pois é inevitável que venham; mas ai do homem por quem o tropeço vier
Mas há o lado dos fetos extraídos. (Mt 18,10-11). Vede, não desprezeis a nenhum destes pequeninos; pois eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêm a face de meu Pai, que está nos céus. Porque o Filho do homem veio salvar o que se havia perdido.
Paulo excomunga um cristão que vivia maritalmente com a madrasta, (1 Cor 5,1-5) e manda a comunidade recebê-lo de volta quando renuncia ao mal que praticou. (2Cor 2,5-11 ) A excomunhão vem de longe. Em 2Cor 13,7-8 diz Paulo: Ora, rogamos a Deus que não façais mal algum, não para que nós pareçamos aprovados, mas que vós façais o bem, embora nós sejamos como reprovados. Porque nada podemos contra a verdade, porém, a favor da verdade. Para os católicos há leis severíssimas contra o aborto. Católico não pode matar ninguém, menos ainda um embrião indefeso. Pedimos o mesmo dos países onde vivemos. A sociedade, então, pela sua mídia nos acusa de intolerância. Que não queiramos nem possamos matar um feto, eles aceitam. Que exijamos deles a mesma atitude, isso não! Querem o direito de interromper um feto, se ele vier a prejudicar quem deseja sobreviver. Tê-lo seria sofrimento e conflito. Interromper sua vida seria solução imediata. Por isso exigem que nos calemos e nos acusam de ultrapassados. Pela mídia, disse o presidente da república que a ciência sabe mais e que a medicina está mais avançada do que a Igreja na questão da vida e das escolhas. De condutor político, faz tempo que passou a condutor moral do povo, inclusive com distribuição de camisinhas no sambódromo. E não faltam os católicos parciais a criticar seus bispos e padres que defendem o feto. Concordam com a Igreja em outros pontos, mas nestes de camisinha, divórcio, aborto e manipulação de embriões, preferem ouvir os outros. Lembro-me de uma senhora que mudou de igreja porque a nossa proibia sua filha de casar-se pela segunda vez. Em três anos estava de volta, ao perceber que a outra igreja não era tão liberal quanto parecia. Lá, podia-se casar duas vezes, mas havia bem menos liberdade do que prometiam. A questão do aborto virou confronto aberto. De políticos e religiosos espera-se diálogo. Mas como dialogar a fundo, se o outro lado já decidiu que embrião ainda não é vida humana e por isso pode ser morto? Nem eles, nem nós abrimos mão de nossas convicções. E então católicos? Cedem eles ou cedemos nós?

6 de dezembro de 2008

Um Deus conveniente

Que Deus anunciamos? O Deus que nos vem ou o Deus que nos convém?

Muitos pregadores e fiéis trocaram o Deus que lhe vem pelo deus que lhes convém. Pode acontecer se é que já não aconteceu conosco! Que Deus anunciamos? Aquele que é quem é, ou aquele que é como nós imaginamos que seja, ou que gostaríamos que fosse?È cada dia mais perceptível no discurso dos templos e da mídia o anuncio de um Deus pessoal, visto apenas a partir do próprio ângulo. É como descrever uma cachoeira apenas pelo que vemos e não pelo que ela é e a partir das descrições de outros que a viram de outros ângulos. Não somamos a vista dos outros. Ficamos apenas com a nossa que achamos ser ou a única ou a mais verdadeira e condizente.Percebe-se em muitas pregações um discurso não a serviço do Deus que vem, mas do Deus que mais convém. Os pregadores nem sequer disfarçam duas intenções. O discurso é pragmático e utilitarista. Não anunciam o Deus que é quem é, mas o Deus que fez isto mais aquilo por eles e por meio deles. O verbo ser cedeu lugar ao verbo fazer. Deus faz acontecer e nós fazemos acontecer em nome de Deus, logo somos mais de Deus do que os outros.O que seria crer no Deus que vem? Seria aceitar Deus como Ele quer vir, como for da vontade dele, no tempo dele e o jeito dele. Pode até ser bonito querer apressar o tempo de Deus, mas nem sempre é gentil e respeitoso. Muitas vezes é inútil. No dizer de Jacques Attali “o tempo é a única realidade verdadeiramente rara, pois ninguém pode produzi-lo, ninguém pode vender aquele de que dispõe, ninguém pode acumulá-lo.” (Uma breve Historia do Futuro, 2008, pg 127, Novo Século)Crer no Deus que vem seria muito mais crer do que arrotar certezas de milagres, muito mais pedir do que garantir que Deus agirá deste ou daquele jeito. Uma coisa é apostar que Deus agirá de um jeito ou de outro e bem diferente apostar que agirá deste ou daquele jeito. Não se diz a Deus o que Ele fará, nem quando, nem a quem. Crer no Deus que vem seria viver o “Pai Nosso”, prece na qual, além de louvar o nome do Senhor, o fiel aceita a vontade dele do jeito dele no céu e na terra.

É também pedir o pão necessário de cada dia, e não necessariamente riquezas e primeiros lugares e conta mais polpuda no banco. Seria ainda pedir perdão e perdoar. Seria admitir que sabemos pouco e querer saber mais sobre Deus. E o que seria anunciar o Deus que nos convém? Seria inventar com Ele uma cumplicidade que não existe usar seu nome em vão, trombetear nossa caridade e nossa capacidade de converter, curar e expulsar demônio. É pregar coisas como “traga o seu demônio que os o expulsamos” E se não houver expulsão será por culpa da sua falta de fé... É garantir ressurreições, três delas na mesma tarde e, além disso, alardear o milagre pelo rádio.

Anunciar o Deus que nos convém é criar demônios da dengue, da malária, da diarréia, da unha encravada, da dor de cabeça, para mais facilmente o derrotar no templo e, assim, fazer o fiel pensar que foi a prece e a exortação do pregador que mandou os demônios de volta ao inferno. É chamar a atenção não para o poder de Deus, mas para o poder dado ao pregador. É derrubar pessoas com toque poderoso e chamar a mesma pessoa para dar testemunho de cura para atrair mais gente. É falar com o demônio ao microfone e solenemente expulsá-lo na frente da assembléia e dos telespectadores. É cobrar o dizimo e garantir que quem o paga vai para o céu e quem não o paga não cresce na vida. Crer no Deus que nos convém é dar o microfone a quem se declara curado e negá-lo a quem, dois meses depois, volta para avisar que a doença voltou! É prometer grandes prodígios na Rua X, numero 25, Bairro Y, às 3,15 da tarde. É adotar o discurso não compromissado de quem não pode criticar o governo que lhe concedeu aquele canal.

Crer no Deus que nos convém seria anunciar revelações que não existiram, visões que não aconteceram, dar uma de profeta que não somos garantir que o anticristo já veio e está agindo nos outros, principalmente nos adversários... Seria super-exaltar os nossos santos e negar os dos outros. Seria sugerir ao povo que ande sem medo pela rua, porque os anjos de Deus cuidarão de cada fiel, mas ele mesmo, o pregador dispensar os anjos e andar com três ou quatro guarda-costas...

Crer no Deus que nos convém seria vender óleo de cozinha como se fosse óleo santo das oliveiras de Jerusalém, medalhas com água do Rio Jordão, pó da Terra Santa. Seria vender uma água na qual Jesus não tocou. Quando o pregador não explica e não põe os pingos nos is, o fiel acaba atribuindo pontos ao tamanho da vela.Com facilidade se prega hoje na mídia um Deus conveniente que ajuda a angariar adeptos, porque o dízimo dado a Deus reverte em barcos, casas, empregos e sucesso financeiro. Será assim tão fácil? A Bíblia não diz que é sempre assim. Anuncia-se um Deus do tipo “dê que eu dou”, “ não dê para ver o que lhe acontece”... O mundo está cheio de porta-vozes com recados que Jesus não mandou dar, mas assim mesmo são dados porque é melhor um templo cheio de gente que não questiona ou exige provas do que um templo com cem pessoas cheias de perguntas e questionamentos. Gente dócil enche mais templos do que gente indócil, que não se deixa doutrinar aos gritos. Gente dócil prefere uma fé que não exija provas ao pregador. É altamente suspeito um templo onde o demônio fala ao microfone e é expulso, mas nenhum anjo ou santo pode falar. Como é que é? Entrevista-se o fiel possuído pelo demônio e não se entrevista o fiel possuído por um anjo? O demônio fala e os anjos e santos não falam? O inferno fala e o céu fica mudo?Sim, o céu fala coisas novas. Mas que coisas? As que a Deus convêm ou as que convêm às novas igrejas, ao movimento e ao pregador que precisa segurar aquele povo à sua frente?E então? A mídia muda ou não muda o discurso das igrejas? Se estiver lendo estas páginas em aula, debata e discuta! Quem muda quem na mídia?

Pe Zezinho, scj

5 de dezembro de 2008

A sopa, a concha e o caldo

A história é curta, mas provoca. E como algumas das histórias de Jesus têm o intuito de provocar. Lembra-se das parábolas do fariseu e do publicano e do bom samaritano? Eram provocações. Jesus se referia a um tipo de religioso que precisava repensar as suas atitudes.
Numa comunidade que recebia os pobres às 18 h, para o sopão do dia, havia seis voluntárias que serviam os mais de 80 pobres que vinham ali buscar a sua sobrevivência. As latas dos pobres eram grandes. Nelas cabiam quatro a seis conchas. Levavam para suas casas. O panelão tinha quase 60 centímetros de altura. Era sopa de conteúdo, com grandes nacos de carne, costelas, batatas, repolho, deliciosa e substanciosa.

Cinco das voluntárias mergulhavam as conchas no panelão e serviam aos pobres a sopa grossa, plena de conteúdo. Uma delas, porém, não se sabe por que razão recusava-se a servir pedaços grandes aos pobres.

Era toda light e acreditava em dieta light. Para ela uma sopa valia pelo caldo. Afastava nacos e os pedaços e servia a sopa rala. Não havia como convencê-la. Se alguém da equipe se distraía, lá estava ele servindo aos pobres apenas o caldinho. Foram tantas as reclamações que a equipe a tirou daquela função.

Na pregação há padres e leigos que cometem o mesmo erro. Poderiam dar um conteúdo mais profundo, porque livros e documentos os há em abundância nas livrarias, estantes e bibliotecas. Mas não há como convencê-los. Não lêem, não anotam, não preparam. E lá estão eles, repetindo sempre os mesmos chavões, dando a mensagem suave e gostosa de ouvir, com as mesmas palavras de todo o sempre, porque se recusam a dar o conteúdo sólido da fé. Só falam ao espírito e do espírito. Estão ali para salvar almas. A política é para outros o para depois. Eles apenas, apenas, apenas, apenas e outra vez apenas anunciam a conversão pessoal e o encontro pessoal com Cristo.

Não peça para pregarem doutrina social porque não farão isso. Sentem-se deslocados tendo que comentar uma Gaudium et Spes, uma Mater et Magistra, uma Populorum Progressio ou uma Solicitudo Rei Socialis. Aquilo é coisa do passado. A onda agora é o espiritual porque dizem que o social não levou a nada. Não mesmo! Aqueles mártires e o silencio doloroso de centenas de bispos terão sido sacrifício inútil, ou veremos suas luzes daqui a alguns anos, quando o discurso das igrejas de resultado, do sucesso e da mais valia mostrar sua falácia? Não vai mostrar? Mateus 7.15-28 e 25,31-46 valem ou não valem?

Como estudar parece que lhes faz mal, acham que o povo não precisa do que eles não querem. Parecem o garçom que se recusa a servir uma comida com a qual não se dá bem. Vale apenas o que ele come e não o que o povo precisa e quer comer!...

Pe Zezinho, scj

3 de dezembro de 2008

Sólida Doutrina

Palestra do P. Zezinho scj à RCC Nacional (Guaratinguetá 2008)

ABERTURA
Em nome do Pai. Do Filho e do Espírito Santo. Com a licença de vocês - que agora pouco eu vi ser convidados, a espalhar a cultura de pentecostes; carismáticos que vocês são... Com a licença de vocês, eu também carismático que sou... Vocês da RCC e eu da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, comecemos a refletir. Vocês divulgam a cultura de Pentecostes e eu a cultura da Compaixão e do Coração – o que vem a ser a mesma coisa.
Com a licença de vocês, venho falar hoje de quatro temas:
1-católicos situados,
2-católicos sitiados,
3-católicos perplexos,
4-católicos resolvidos.

Eu me inspiro para falar sobre isso num livro do padre Agenor Brighenti, grande antropólogo e sociólogo da Igreja de agora, catarinense, que escreveu a Igreja Perplexa. Também me inspiro em alguns livros que abordam esse tema. Um deles está traduzido em português: “O Sal da Terra”, que é uma entrevista que um jornalista agnóstico fez ao cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI. O Papa, conversando com o jornalista que demonstra grande conhecimento da doutrina católica, situou a Igreja no mundo de hoje. A entrevista foi continuada num outro livro. Ainda não existe tradução no Brasil. Acabo de falar com um dos editores sobre o livro “Dio e l`Uomo”. Nele, a conversa do papa com o agnóstico continuou e o excelente catequista que é o papa responde diretamente ao amigo de outra convicção sobre como ser Igreja num mundo perplexo; uma Igreja que também se reconhece perplexa em alguns assuntos, mas, resolvida em muitos outros. A humildade do Papa o fez reconhecer que em alguns aspectos nós católicos somos perplexos. Não temos todas as respostas. Mas, em alguns aspectos fundamentais nós somos resolvidos. Sabemos o que queremos. Também me apoiei no Lexicon, que é um livro novo – e aconselho a todos que o procurem – do Pontifício Conselho para família; termos ambíguos discutidos sobre família, vida, questões éticas. Editado pela CNBB. Acho que todo casal, sobretudo se é líder, como vocês são e querem ser, deve lê-lo.

Eu quero ser fazedor da História; vocês também. Mas, não é possível ser fazedor da História se a gente não o faz com a Igreja. Pelo menos um católico não pode fazê-lo sozinho. E também não o faz sem a família, porque sem família não há história. Queremos criar famílias menos perplexas e mais resolvidas. Mas, para isso, precisamos conhecer os temas básicos da Igreja; sobre a espiritualidade do homem e da mulher, da família enfim; sobre os dramas e sofrimento das famílias e as respostas que a Igreja lhes oferece. Este Lexicon já está em português. Pouca gente conhece, mas, é um tesouro. Pedi que também traduzissem o Enchiridyon della Família. Que é da editora da minha congregação, mas é dirigido pelo Conselho Pontifício da Família. Quem quiser saber tudo o que a Igreja falou nesse último século sobre a família conheça este livro. Acredito que vai ser traduzido. Foi nesses livros que acabo de indicar que fui buscar, juntamente com algumas reflexões do Papa – que eu já disse que é um excelente catequista; um homem situado que não se deixa sitiar – foi neles que eu fui buscar as idéias de hoje.

SITUANDO-NOS

O que está acontecendo? Nós somos humanos, ninguém de nós pode dizer que tem espiritualidade suficiente para sozinho, ou em pequeno grupo dar respostas para um mundo tão desafiador e tão agressivo – como são o mundo, a mídia, e em geral as comunicações de hoje. Sozinho você não vai saber responder. Só um grupo também não saberá. Cada movimento da Igreja, seja ele Movimento Familiar Cristão, Encontro de casais, e mais de 50 movimentos dedicados à família na América Latina, seja ele RCC, ninguém sozinho tem espiritualidade suficiente ou cultura suficiente para ajudar a resolver esse magno problema, mas, todo juntos têm. Sozinhos, repetirão e levarão ao mundo os conceitos básicos da nossa Igreja sobre o homem e a mulher, mas sem profundidade. Sem antropologia não dá. Nós temos que saber quem é o homem, do ponto de vista de si mesmo, no Brasil de hoje e na sua região; e precisamos saber também quais as conseqüências da comunicação que chega a essa criança e a esse adolescente, a esta mulher e a este homem; a esta família, enfim. Quando começamos a entender o sociológico da fé que está nos documentos da Igreja, que além do catecismo publicou também um Compêndio da Doutrina Social entendemos também não só o sociológico, mas também o psicológico e o pedagógico da família. Quando nós começamos a entender tudo isso, entendemos melhor o homem que se casou e o que não se casou. Também o que terminou um casamento. Vamos entender melhor a mulher que se casou ou não casou, ou terminou um casamento, foi abandonada ou abandonou. Sem antropologia, sem psicologia, sem sociologia nós não vamos entender nada disso. Aí você me diz: -Ô, padre, você quer que a gente saiba tudo isso? Não! Ninguém pode saber tudo isso. Eu quero que vocês prestem atenção nos irmãos inspirados por Deus, que se tornaram antropólogos para servir a Igreja, sociólogos para analisar a sociedade do ponto de vista da Igreja. Você não vai ter que ler os quinhentos livros que ele leu para ser tornar sociólogo. Mas pode muito bem ler os livros que ele escreveu, facilitando para você uma visão da sociedade. Não tem que ler todos os livros que o psicólogo lê, mas, você pode ler de alguns deles com visão cristã, e saber o que incide numa cabeça masculina ou numa cabeça feminina em tempos de liberdade excessiva. Você vai entender o eclesiólogo e, com ele, como anunciar Jesus em tempos de crise. E vai começar a compreender a contribuição desses irmãos, -queridos irmãos teólogos-, mais profundos do que nós; queridos filósofos, queridos historiadores católicos, queridos e sofridos estudiosos. Você vai perceber que nos trinta ou quarenta anos de estudo deles, eles e elas, porque há muitas mulheres doutoras, colocaram à disposição da Igreja um tesouro. Junto aos documentos da Igreja, dos bispos reunidos, do santo padre seus escritos nos fornecem sabedoria. Nem são precisos muitos livros: uns 40 ou 50 que a gente lesse no decurso de uns dez anos e teríamos uma idéia básica do que é ser católico hoje e situar-se como católico. Por que é que muitas famílias católicas não se situam e se sentem sitiadas por irmãos de outras igrejas, que vem puxar adeptos ou nos dizer na cara que estamos errados? Por que se sentem sitiadas pela avalanche de pornografia, pela avalanche de liberdade excessiva que lhes roubam os filhos? Estão sitiadas porque não souberam situar-se.

LIVROS E LEITURAS

Ano passado, em novembro, eu estive na Espanha pra fazer um encontro de comunicadores da minha Congregação, os Dehonianos, Padres do Sagrado Coração de Jesus. Depois fui à Itália. Fotografei uma cidade-fortaleza entre Nápoles e Ândria. É uma cidade fortaleza inexpugnável. Não havia como invadi-la porque estava num lugar de onde se via tudo. De lá, eles mandavam sinais para as cidades aliadas, caso fossem sitiados. Não eram sitiados porque estavam muito bem situados. Descobriram onde estavam e um lugar de onde podiam ter visão panorâmica do mundo ao seu redor. Então, ninguém conseguia conquistá-los porque eles tinham aliados, além disso, estavam em lugar onde ninguém tinha como sitiá-los. Tirei a foto da cidade e lá comecei a escrever o meu livro, que já está publicado. Mudei o título para: Da família sitiada à família situada. Mas, pode-se dizer a mesma coisa: Da família perplexa para a família resolvida. Hoje há uma Igreja perplexa – e há!, Não vamos tapar o Sol com a peneira–. Temos milhões de católicos inseguros na fé. Repetem frases dos outros, porque eles não têm o que dizer. Falta-lhes suficiente doutrina para pregar com segurança. Preferem ser repetidores de frases feitas. Mas porque não têm doutrina? Porque, - sinto ter de dizê-lo-: até padres, quantos mais leigos, não gostam de livros nem estudam sua fé! Conheço e não sei se vocês também conhecem, leigos que pregam uma, duas horas por dia no rádio, mas, nunca leram o catecismo da Igreja Católica. Estarei provocando vocês com uma afirmação mentirosa e exagerada? Ou falei a verdade? Conheço leigos e padres que falam da Bíblia, mas não a leram ainda nem uma vez por inteiro. Conheço pregadores da fé – e por vinte e cinco anos fui professor de Prática e Crítica de Comunicação na Igreja e até hoje gravo tudo o que acontece de pregação em televisão e rádio, das mais diversas igrejas-. Sei do que estou falando. Tenho lá gravados os discursos de pregadores que não leram e não lêem. Meu estudo é a linguagem da fé. Sinto ter que dizer que muitos pregadores traem o fato de que não estão situados. Não gostam de livros. Não lêem. Começam a falar e, depois de cinco minutos, você percebe que ele não lê nem livros nem documentos. Vai repetir pela centésima vez no ano a mesma coisa. É devoto da Santa Mesmice! Fala sem conhecer o último documento do Papa sobre a eucaristia. Não leu e é padre. Quando você ouve uma das suas frases, você diz: -Não tem contexto, está mal situada! Não está nos evangelhos, não está nos documentos da Igreja. Ele não se situou, ele não tem catequese! Mas, está pregando para milhares de ouvidos católicos. Como podem deixar que ele fale para milhões de ouvidos católicos? Deixaríamos um porteiro de hospital operar o coração de algum paciente? Mas é isso o que está acontecendo na nossa igreja em nas igrejas evangélicas! Há estranhos naqueles púlpitos! É como admitir um estranho que nunca estudou medicina numa faculdade a dar aulas de anatomia!


O BÁSICO DA FÉ

O mínimo que se pode exigir de um sacerdote ou de um leigo que prega é que conheça o catecismo da Igreja Católica. O mínimo que se pode exigir de alguém que anuncia Jesus é que ele tenha lido a Bíblia por inteiro, para ter dela uma visão abrangente, acentuando os evangelhos e as epístolas, seguidos dos comentários adequados, situados no devido tempo e aplicados para os dias de hoje. O mínimo que se pode exigir de alguém que deseja ser porta-voz da santa mãe Igreja Católica é que tenha lido algum livro de história da Igreja, para saber das virtudes, dos seus santos e dos seus mártires, desde os primórdios; para saber dos pecados, das imperfeições, das perplexidades da Igreja através dos séculos. Isto, porque ela é santa em projeto, mas na realidade, é peregrina e pecadora porque feita de gente como nós. E nós pecamos! O projeto é bom, mas a execução falha porque passa por nós.
Precisamos ler o básico da História da Igreja, para sabermos quando começou esta ou aquela heresia: os donatistas, os montanistas, os arianos, os nestorianos.. Quem começou, porque e em que circunstância histórica?...Quem foi o simpático sacerdote negro, cantor e escritor de livros e canções Ário que fez tantos discípulos no seu tempo e depois por séculos influenciou a Igreja. O que ele pregava? O que ele dizia sobre a divindade de Jesus? Por que a Igreja o julgou herético? Conhecendo a História da Igreja você vai dizer: ele fugiu da unidade nesse aspecto da sua pregação... Achou que a idéia dele teria que vencer na Igreja. Esqueceu-se de acender sua luz na vela dos outros, porque a mesma luz do Espírito Santo, difusa sobre o mundo, atinge todos. Que doutrina triunfou? Porque não aceitamos a catequese de Ário? Um catequista que fala no rádio e na televisão hoje precisa saber isso, posto que há livros e programas na mídia repetindo todos os dias o que Ário ensinava. A propósito, você sabe o que ele ensinava sobre a divindade de Jesus? Viu porque insisto no estudo da fé? Você talvez saiba, mas muitos católicos não sabem, embora se ouça repetir a doutrina de Ário em muitos programas religiosos que chegam aos nossos lares. O problema da fé não é a luz: são as cortinas e portas; algumas são abertas, escancaradas outras são frestinhas porque há crentes que morrem de medo da fé do outro. Olhamos de soslaio para os outros cristãos, seguros de que nós é que fomos chamados a tornar a Igreja mais pura. Mas nem sempre sabemos o que eles pregam, porque muitos de nós não sabemos nem mesmo o que pregamos. Consubstancial? Semelhante? Igual? Homo-ousios ou homo-i- ousios? E aí? Um sacerdote pode ensinar que Maria e Jesus tinham o mesmo DNA e por isso se pode “comungar Maria” porque ela faz com Jesus uma união hipostática? Não é heresia? Quando fechamos as portas a um irmão, só porque ele discorda de nós, mesmo que os bispos e o papa o vejam com bons olhos, algo está errado não nele, mas em nós. Somos mais cristãos quando aceitamos aprender com a sabedoria do outro irmão que não é do nosso movimento, mas, com quem se percebe que Deus está e quando dizemos: -Este movimento, essa experiência de fé é bonita. Quero conhecê-la. Não faço parte, mas é maravilhosa. Tem dado santos para Igreja! Nesta hora se vê quem é igreja e quem é sectário. Quem separa e isola não age como cristão. Quem aproxima, age. Quer ver que alguém é cristão? Veja que se ele elogia o que há de bom nos outros e honestamente tenta corrigir o que acha falho em si e nos irmãos de fé. Veja se ele aceita ser corrigido ou ignora seu conselho porque você não é do grupo dele, logo: não tem luz suficiente para ensinar àquele grupo! Ora, se uma comunidade deu santos para a Igreja, então ela merece respeito, ainda que dela discordemos neste ou naquele item. Se uma comunidade trouxe confusão à diocese, então ela precisa rever os perplexos que a infiltraram e que, como baratas tontas não sabiam pra onde ir e acabaram lá, prejudicando os bons e serenos daquele movimento. Falsos franciscanos, falsos dominicanos, falsos libertadores, falsos, reparadores ou falsos carismáticos a prejudicar os que vivem a unidade na Igreja...


CRER É QUERER MAIS

Você é um católico muito mais seguro se estuda e quer saber o que o Papa e os bispos estão dizendo; o que dizem os teólogos e especialistas. O carisma deles é esse: foram chamados a ser mestres, doutos e doutores. Trabalharam duro, estudaram vinte e trinta anos e nos brindaram com obras especialíssimas e maravilhosas. Semana passada comprei quatro livros de antropologia: Um de Carl Sagan, agnóstico, e outro de um ateu, respeitador das igrejas. O livro chama-se Quebrando o Encanto, o autor é Daniel Dennet. Ele mostra um imenso respeito pelos religiosos sérios. Critica os ateus superficiais e também os crentes sem conteúdo. Mas, tem respeito por homens de fé que fundamentam o que dizem. É um ateu que tem o que nos dizer. Os outros são de antropólogos religiosos que mostram o homem como um ser religioso. A religião tomou conta do mundo inteiro. Agora é preciso ver o que esta religião faz de bom e de ruim. O que vou fazer para o meu povo ser dono da sua história? Se eu não sei o que é um ser humano, se não tenho um conceito claro, como vou entrar em diálogo com outra igreja? Se não conheço a historia deles nem a minha, como dialogarei? A primeira frase atravessada que ele jogar vai me deixar confuso, caso eu não saiba explicar a Igreja na qual me batizei e caso nem tenha lido seu catecismo.... Se eu conhecer os erros da igreja, mas, também os seus santos e as suas virtudes; se eu souber enfrentar a história da minha igreja sem mentir a mim mesmo; se admitir que aqui e ali a igreja errou porque seguiu por um caminho que não foi bom naquele tempo, mas um pouco além ela se corrigiu; se perceber que o Espírito Santo não a tinha abandonado, embora muitos de seus membros o tivesse esquecido durante determinado período, terei caminhado de maneira lúcida. Se houve um Papa Libério, um Papa Vigílio e um Alexandre VI e um João XII que não honraram o papado, se houve 39 anti-papas, também houve Gregório Magno, Leão magno, Gregório VII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, e muitos mártires e santos que dignificam aquela cátedra . O mesmo se diga de outras religiões que tiveram santos e pecadores, entre os quais alguns fundadores. O diálogo fica bem mais sereno quando se admite que os crentes e líderes religiosos não deixam de ser humanos. Será bom admitir que o Espírito Santo leva a Igreja a reencontrar-se naquele movimento, naqueles santos, naquele concílio. Sim, aqui ela errou, mas ali acertou em cheio!... Esta diocese mudou com este bispo, este movimento dominou demais e não deu chance para a catolicidade. Havia outros com muito a dizer, mas não foram ouvidos. O grupo era forte demais e impôs pelo rádio ou pela televisão suas idéias, seus cantos e sua pregação. Não emprestou o microfone a outros grupos. Só dava eles... A Igreja Católica tem um colo muito grande. Ela é toda rahamim. No plural! Raham é colo, entranhas. Deus não tem só um. Ele tem muitos colos. Um deles chamou-se Franciscanos, outro Carmelitas, outro Beneditinos, outro CEBs, outro RCC, o outro Vicentinos, o outro, Apostolado da Oração, o outro os Marianos. Deus tem muitos colos e a gente se aninha num deles para descobrir toda a Igreja que é para nós um colo de mãe.


ABRAÇAR AS OUTRAS DIMENSÕES DA FÉ

Felizmente a Igreja é muito maior do que a dimensão que nós conhecemos, maior que a dimensão dehoniana, na qual eu fui formado. Se eu fosse apenas dehoniano e seguisse só o nosso sociólogo, e advogado padre Dehon seria pouco. Minha própria congregação me colocou em contacto com a espiritualidade dos franciscanos, posto que ele seja um dos nossos patronos. Fui aprender com os redentoristas, com os dominicanos, com os beneditinos. Precisei da riqueza deles para me tornar mais devoniano na Igreja católica.
Fui aprender e aprendo com a RCC. Alguns de vocês me olham de soslaio porque, por eu ter a coragem de dizer o que penso de vocês e às vezes lhes faço críticas, acham que não os admiro nem os amo. Ledo engano. Também lhes faço elogios. A RCC tem uma missão na Igreja de hoje. Ressuscitou valores que andavam esquecidos. E cabe a mim ver o caminhar de vocês para entender as outras renovações, as outras reparações e as outras iluminações que a igreja recebeu e recebe. Somos todos convidados a ser iluminados e iluminadores, abençoados e abençoadores, renovados e renovadores. Mas, primeiro, perdoados e perdoadores. Quando nós aprendermos sobre a verdadeira antropologia cristã e dissermos: Esta irmã tornou-se tal ser humano por causa disso, disso e disso... Este grupo de pessoas tornou-se tal por causa disso, disso e disso quando formos capazes de entender os porquês do outro teremos dado passos gigantes na direção de uma fé mais inteligente e compassiva. Se nosso catolicismo não for isso, acabará sectário. Como quebrar o encanto que nos prende a apenas um grupo na Igreja e nos faz nos sentir estranhos diante outros e até menosprezá-los? Como a gente discerne, distingue e caminha junto? Como discordar sem deixar de admirar e de amar? Aí, a Igreja faz uma pergunta a todos os movimentos familiares e quer saber qual é a contribuição que o MFC, o ECC, o EFC, o ACC, o FCC, as CEBs, a RCC, com a sua espiritualidade típica, vão dar à Igreja para que ela forme mais homens e mais mulheres fiéis ao projeto matrimônio? Como formaremos casais capazes de manter a fidelidade até o fim, mais filhos capazes de respeitar a cultura dos seus pais? ... Como nós formar filhos agradecidos, apaixonados pela família e livres? Os pais não podem escravizar os filhos. Nem os filhos tiranizar os pais. Sejam livres, mas obedientes. Como vamos formar jovens capazes de renovar a sociedade, sem que eles e a sociedade percam os valores fundamentais? Como formar jovens líderes que não regridam na fé e não passem a viver com medo do inferno e do demônio por culpa da pregação pesada do seu mentor excessivamente preocupado com o poder do inimigo e com o fim do mundo?Como formar homens e mulheres capazes de ligar uma televisão e desligá-la se for preciso? Como formaremos pais e mães com autoridade para que o juiz, o delegado, ou outros não tenham interferir e controlar o seu filho? Como viveremos a espiritualidade do nosso movimento que Deus suscitou, formar casais posicionados casais não perplexos, casais que admitem que tenham defeitos, mas estão firmes na sua vocação de matrimônio?


SÓLIDOS COMO ROCHA

Como viver como rocha firme? Casei pra valer! Sei que tenho problemas, sei que minha esposa os tem, sei que meus filhos os têm, mas, mas esse é o meu matrimônio e eu aqui fico porque sou um dos pilares da minha comunidade! Aprendo a perdoar e peço perdão, mas, não desisto do meu projeto de matrimônio! Ajudo minha esposa e meus filhos, com o meu sacrifício e o meu martírio, se for preciso, mas jurei naquele altar viver esse matrimônio e não vou embora. Eu o seguro porque sei o que é ser pessoa e o que poderá suceder aos meus filhos se eu balançar. Agora eu vivo para eles! Essa firmeza, vocês, irmãos da RCC, vão encontrar na sua espiritualidade, que agora pouco chamaram de cultura de pentecostes. Maravilha! Os irmãos de outros movimentos vão buscar a sua profundidade numa outra espiritualidade. Eu a busco na cultura da compaixão e do coração. Mas, eles também vão descobrir que precisam ser rochas e pilares. Como é que isso vai acontecer? Cada grupo, suscitado pelo Espírito Santo, vai achar a sua maneira de motivar uma família a ser sólida. Somente pessoas e famílias sólidas podem criar um mundo solidário.

Aqui eu acentuo a razão de minha palestra de hoje: SÓLIDOS NA DOUTRINA.

Solidário vem de sólido. Não é um que balança a qualquer vento. Sólido é quem, se o outro está caindo, ele o segura porque lhe suporte, posto que é forte e bem enraizado. Por isso: solidário. O vento pode soprar como quiser, vai até mexer com ele, mas ele não cai porque está firmemente plantado. Só um homem sólido, de cabeça sólida, coração sólido e firme, pode ser solidário. Quando for fazer a caridade, vai fazer em nome daquele que o plantou! Pode até sofrer os impactos dos ventos do mundo, mas, não cai. É disso que Jesus falava na sua parábola da casa construída sobre a rocha! (MT 7,24-25) É interessante notar que a comparação vem logo depois de Jesus dizer que não reconhecerá como seus os falsos profetas que usaram seu nome sem respeito e que gritaram Senhor, Senhor, sem ter cacife nem conteúdo para isso. (Mt 7,15-23) Ele quer gente sólida e verdadeira, desapegada e mais forte que a fama, o dinheiro ou o sucesso. Quer catequistas que não se deixem levar por honrarias, aplausos e primeiros lugares. Repreendeu isso o tempo todo nos fariseus que se achavam mais do que os outros. Precisamos tomar enorme cuidado com a teoria do “um passo a mais”. Se entrar numa corrente de espiritualidade representou um passo mais para você, que seja apenas um passo a mais para você e nunca um passo a mais do que o resto da Igreja... Alguns caem nesse terrível engano. Para tristeza minha já ouvi tal pregação de emissora de rádio católica. O pregador literalmente dizia que ser da RCC representava um passo além da fé cristã... Foi assim que começaram Ário, Nestório e Montano! Não poderiam voltar atrás porque tinham dado o passo a mais... Só que o passo a mais pode ser a queda no abismo do orgulho de que acha que não precisa ouvir os outros irmãos!


SE EU ERRAR, CORRIJA-ME!

Se quisermos um mundo justo, fraterno, solidário, capaz de mudar as instituições políticas, capaz de fazer políticas boas, de ir lá representar o seu povo, capaz de, na sua sociedade criar organizações sociais que elevam o homem, precisamos de solidez de vida e de doutrina.O jovem para libertar-se da droga precisa de gente sólida ao seu lado. Sólida no quê? Na espiritualidade, no espírito de oração, no acolhimento, na humildade, na doutrina. Ninguém é sólido, se não se deixa corrigir. Errar, a gente vai. A Igreja tem uma mística belíssima que ultimamente anda um pouco esquecida. É a chamada correção fraterna. Se eu errar, me corrija! Sou seu irmão, não sei tudo! Não acerto sempre! Se você errar, eu, seu irmão, me permito dizer que naquilo você errou. Não estarei dizendo que você é errado, mas que naquilo você errou.

Como são Paulo dizia aos Coríntios 1 Cor 11,17-22:

Nisso eu vos louvo, nisso não vos louvo.
17 Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior.
18 Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio.
19 E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós.
20 De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor.
21 Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro se embriaga.
22 Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo.

Se quisermos uma igreja unida, verdadeiramente carismática, verdadeiramente cultivadora dos dons, ela vai ter que pedir perdão e nós com ela. Ninguém de nós é anjo. Nós erramos. Aquele pregador de vida santa pode, de vez em quando, cometer um deslize. A história dos santos famosos o atesta. Foram santos, mas não perfeitos. Só Deus é mil vezes santo e perfeito. Santo erra, às vezes no comportamento, às vezes em palavras e em pregação. Aquele moço tão entusiasmado, maravilhoso, santo (se você for julgar a sua vida pessoal, ele é santo) às vezes comete um erro dizendo ou cantando palavras erradas. Eu tenho que chegar até ele e dizer: - Sou seu irmão, mas, isso aí não bate com a doutrina da nossa Igreja. Se ele ficar zangado comigo é porque não entendeu que o Espírito Santo não o quer cantando contra a Bíblia. Se quando eu for corrigido eu ficar irado, então eu não tenho espiritualidade. Eu tenho mais é que dizer -Muito obrigado, vou me corrigir. Da próxima vez farei certo. Deus lhe pague porque você me corrigiu. Aí, sim, nós estaremos formando uma comunidade perdoada e perdoadora e penitente. Por isso, ela pode ser pregadora. Isto serve para o seminarista que está começando, para o padre novo, para o padre velho como eu (quarenta e dois anos de padre) que posso muito bem ser corrigido por um seminarista que estudou a matéria mais profundamente do que eu. Este seminarista pode me corrigir, sim. Se eu vou atingir milhões com esse erro, ele pode me corrigir. É o meu irmão mais novo a quem Deus deu uma missão. Corrija o velho padre aqui! Mas, eu também, por dever de estado e consciência de homem a quem Deus chamou, apesar dos meus pecados, eu também tenho obrigação de chegar ao outro profeta que é até mais santo do que eu e corrigi-lo, se o que ele disse não bate com a doutrina da Igreja. Aí eu chego a ele, com todo carinho e lhe digo: Eis o que ouvi você pregar. Gravei sua fala. O que você ensinou disse não combina com o que o Catecismo ensina. Da para você corrigir? Se ele aceitar, for com outro e analisar e mudar, eu terei ganhado este irmão para a igreja. Se ele não aceitar, aí ele vai se ver com Espírito Santo. Ou eu terei que me ver com Deus, caso o errado seja eu! Trata-se de uma questão de cortinas. Abre-se, ou fecha-se para a luz. Esse instrumento é salvação numa família: a correção fraterna, materna, paterna e amorosa!
O homem que sabe pedir perdão tem espiritualidade suficiente para ser pai de família. Concordam comigo? Eu já nem disse “que sabe perdoar” porque a gente não sabe perdoar direito. Mas, quem descobriu a graça de pedir perdão, está apto para ser um bom marido, um bom pai de família. Ela, para ser esposa e mãe de família, se souber pedir perdão, conseguiu a coisa mais difícil do mundo que é dobrar-se e dizer: - Errei, desculpa-me! Quem sabe pedir perdão, se um dia alguém errar contra ele, vai perdoar porque sabe o que é estar no lado de lá. São a compaixão e a misericórdia sacudindo suas entranhas. Você foi feito para ter colo e para pedir colo. Aliás, você é o colo de Deus para as pessoas que passam na sua vida, sobretudo, para os mais sofridos e carentes. Então, essa palavra “situados”, num mundo que nos balança e quer tirar o nosso tapete, num mundo que nos sitia, só pode dar certo se formos sólidos na doutrina.


PROFETAS E PROFECIAS

Jesus alertou que sem dúvida nenhuma há profetas no mundo. Sem dúvida nenhuma, há dons. Querer negar que o outro tem um dom, só porque eu não tenho isso, é atentar contra o Espírito Santo. Ele não o deu a mim, mas deu ao outro. Louvado seja Deus! Eu tenho os meus e ele os dele. Se meu irmão diz que tem o dom da cura, quem sou eu para negar? Mas espero que ele prove que o tem e que não seja apenas marketing. O mesmo deve tenho eu quando admito que tenho o dom da interpretação ou do aconselhamento.
Porém é preciso capacidade para discernir se o que digo vem ou não vem do Espírito Santo. O estudo da fé nos capacita para vermos que alguém está nos enganando e enganando o povo. Nisso Jesus mandou ficar esperto. Disse Ele. - Olha, alguns vão dizer: venham comigo que eu sei onde ele está lá no deserto. Venha que eu sei o endereço. Eu sei! Cuidado com essa gente, Jesus disse. Não lhes deis crédito e olha que eu estou avisando de antemão. Muitos farão prodígios e milagres; enganarão a muitos e se possível até os eleitos. Mas, não se deixem enganar. (Leia Mateus 7,14-23 e Mateus 7,15-23. Mateus todo o capítulo 23, e Mateus 24, 13-28. Paulo alerta em 2 Tm 4,1-5 contra os mesmos embustes. Como não me deixar enganar se não deixo a igreja me ensinar? Se nem sequer li o se Catecismo! E aqui há muitos que não o leram... Sei disso! Como é que eu vou ser esperto, prudente como serpente e simples como pomba, se eu ignoro o básico da fé? (Mt 10,16) Eu vou dizer uma frase aqui e queria que, por favor, não a esquecessem, porque ela é para provocá-los: Vocês não têm que ser doutores, mas, se sabem ler, terão que ser leitores. Não há que ser doutor, mas há que ser leitor. Se Deus lhe deu, católico apostólico romano, jovem, adulto, padre, pai de família, a graça de não ser analfabeto e saber ler, então você tem este dever. Tem que conhecer o que sua Igreja fala. Eu quero saber! Estão falando na mídia a favor do aborto, do casamento entre gays, da eutanásia, de anticoncepcional, de contracultura, de bioética, de tolerância, de clonagem? Eu tenho que me perguntar: O que é isso? Católico pode ou não pode? Eu quero saber! Eu tenho filhos! Você talvez diga. Não estou preparado para ler um livro desse calibre! Ninguém falou que você tem que comer dez quilos de comida no mesmo dia. A sugestão é que vá comendo aos poucos. Não engorda e faz bem! Acho que uma das dores da igreja, não só no Brasil, mas, no mundo é que os católicos não são bons leitores. É difícil convencer o povo católico a assinar revista católica. É difícil convencer o povo católico a pegar os principais documentos da Igreja e ler. De livro de espiritualidade gostosa e testemunho de vida, eles gostam. Mas, os documentos da igreja – que é pra eles saberem quando forem pregar ao microfone, como eu aqui – eles não gostam. Até mesmo os líderes padecem desta fraqueza. Alguns odeiam livros! Quando falam, percebe-se logo que não leram os últimos documentos da nossa fé. E são líderes!Alguns são sacerdotes! Infelizmente!...
Aí eu olho para o irmão e digo: - Eu era como você. Mas, ao vinte e dois ou vinte e três anos eu descobri que, se eu queria influenciar a História ao meu redor, eu tinha que saber o que ocorre mundo afora. Aí Deus me deu a graça de estudar fora e ver o que diziam os judeus, os evangélicos, os ateus que ministravam as aulas que eu freqüentava na faculdade. Ouvindo-os eu dizia: - Quero saber o que diz a minha igreja! Eles que falem, porque eu também terei o que dizer! Faço o mesmo ainda hoje. Se vejo, na estante, um livro contra nós prometo procurar um a favor ou resolvo escrever um.Tenho um amigo advogado, muito inteligente. Não é católico demais, mas afirma-se descendente de católico. Ficamos mais amigos depois do que eu lhe disse. Ele também fala coisas que eu não gosto de ouvir. Amigos são para isso! Um dia, ele defendia na rádio em que às vezes atua, o livro de Dan Brown. Disse que aquele livro desmascarava a Igreja através da História. Deixei que ele falasse. Eu estava lá. Quando ele acabou eu disse: -Você é advogado. Quantos livros sobre Direito você já leu? Muitos! Já leu a Bíblia? Seja honesto! Não leu? Já leu algum livro de teologia? Não leu? Inteligente como você é, já leu algum livro de história da Igreja? Não? Mas, Dan Brown você leu! Então você não é mais católico você é danbrownista! Dê uma chance para sua Igreja! Disse ele: - Você me pegou... Prometo que vou ler. Indique-me os livros. Mais que depressa indiquei os livros, principalmente o antropólogos e teólogos que ele deveria ler gente tão inteligente quanto ele e até mais. Indiquei alguns livros de História e disse: - Depois que você ler esse dez livros nós vamos conversar. Sobre isso eu sei mais que você. No estudo da Constituição e de nossas leis será a sua vez de me orientar.


PERPLEXOS DEMAIS

Muitas vezes perdemos de vista o fato de que a perplexidade que toma conta de cabeças católicas nasce do fato de que não se é leitor. Você não faz algo só porque gosta, faz porque tem que fazer. Se um jovem quer se formar, vai ler livros dos quais não gosta, mas, vai ter que ler. O “Ser e o Nada” de Sartre é um livro dificílimo, mas a depender do curso o aluno terá que ler. Então, que tal o católico, no começo ler livros dos quais não gosta, mas, graças aos quais começará a entender é o que a Igreja está dizendo? Se eu não souber o básico da fé não posso ser o padre que quero ser, nem o leigo pregador que pretendo me tornar.
Falo agora, de um pregador que recentemente ensinou um erro colossal no rádio. Quando me encontrar com ele vou lhe dizer o que penso. Não darei o nome aqui. Semana passada, escutei no rádio um rapaz dizendo: - Toda vez que você comete um pecado, você põe mais um espinho na fronte de Jesus e lá no céu ele sangra. Nossa senhora chora perto dele, a cada pecado você comete.
Santo Deus! Isto se falava há duzentos anos. A Igreja não se expressa mais assim. É pieguice pietista. Não é teologia sólida. O conceito de céu e de redenção é outro! O conceito de misericórdia e solidariedade é outro. Jesus não está sangrando no céu. Ele não chora no céu! Nós é que temos que chorar aqui na terra. Porque aquele pregador disse isso? Alguém sem catequese lhe ensinou e ele não progrediu nos estudos... Imagino isso. Se ele é pregador e fala a milhares de ouvidos, não podia ter dito o que disse! Faltou catecismo para aquele moço! Ele pensou que se pode pregar a palavra de Deus, uma hora por noite, ignorando o catecismo da igreja. Não pode! Não pode! Não pode! Seja ele padre ou não, ninguém pode ensinar isso! Se você foi enviado, o bispo o nomeou. O movimento pôs você lá; alguém pediu! O mínimo que você tem a fazer é dizer: - Vou pregar o que sei e estudar mais para pregar melhor!
Sou hoje um militante católico em favor de mais profundidade. Não sou tão profundo como outros colegas padres. Bebo da cultura deles. Mas sou ávido leitor. Há padres maravilhosamente profundos e leigos que dão um banho de cultura religiosa. Conheço rapazes e moças de 27, 28 anos que sabem mais teologia do que alguns padres. Leram. Estudaram! Conheço jovens apaixonados pela igreja, que lutam para ter solidez e querem passar isso lá no seu trabalho. Alguns são jovens médicos e me disseram: - Só a medicina não vai me ajudar a salvar o meu povo; eu quero saber o pensamento da minha igreja, porque lá onde estudo eu me declaro católico e eu sou porta-voz de uma igreja nem sempre aceita! E aqui faço um apelo a vocês irmãos da RCC, que, diga-se de passagem, lêem muito mais do que outros movimentos. Esse elogio vocês merecem. Vocês lêem um pouco mais do que a média dos católicos. (ouve-se palmas) Agora, depois das palmas deixem-me dizer mais uma coisa: Ler, vocês lêem, mas o que é que vocês lêem? Eu sei que a lêem muito Bíblia. Mas, os documentos oficiais da igreja, bem, aí eu sou capaz de apostar que muitos de vocês estão em falta. Conheço-os mais do que imaginam... Sei das suas escolas da fé que são ótimas, mas qual é o percentual dos que as freqüentam? Chega a 5% dos membros da RCC?Isso quer dizer, que, já que desejamos a cultura do aprendizado perguntemo-nos o que disse o Documento de Aparecida. Disse o quê? Que nós temos que ser ao mesmo tempo aprendizes e missionários. Isto quer dizer: a vida inteira aprendendo com toda a igreja. E a vida inteira ensinando o que já sabemos. Mas, para isso eu tenho que ter a cultura do livro certo.


MARTAS E MARIAS DE BETÂNIA

Qual é o livro certo? Qual é o curso certo? É aquele que me põe a par do pensamento da minha igreja, hoje porque eu não posso ser um católico perplexo. Eu me situo. É por este caminho que se vai. Vocês já decidiram. “Quero ser um católico com acento na RCC”. Ótimo! Que seja! A sua mística principal é o louvor. Escolheram o certo porque o primeiro dever de um cristão é o louvor a Deus. Está no nosso Catecismo. Esse é o primeiro dever da criatura humana e dos filhos de Deus. Belíssima escolha! Maria de Betânia, irmã de Marta, escolheu a melhor parte que não lhe foi tirada. Ela quis ficar perto de Jesus e ser evangelizada. Vocês são pouco Maria de Betânia na igreja. Gostamd e louvar e adorar e passam horas orando. Ótimo! Muitos de vocês já conseguiram se tornar Marta também. Porque ela tinha os seus méritos em nada menores do que o da irmã. Ela suou naquela cozinha para servir os hóspedes. Ótimo também. Penso, porém, como irmão que segue carisma semelhante ao de vocês, - o da restauração- talvez pela força apostólica que vocês têm: emissoras de rádio, televisão, livrarias, até editoras, pela força de comunicação que a RCC alcançou – e nisso vocês merecem elogios – vocês podiam ter gente mais profunda e mais preparada nas doutrinas da catequese da igreja. Têm excelentes mestres e pregadores, mas às vezes, falta conhecimento de doutrina a muitos dos seus animadores de rádio e de televisão. É perceptível a falta de leituras mais profundas em alguns dos seus animadores. São simpáticos, fraternos, santos e queridos, mas traem falta de conhecimento da doutrina e dos documentos da Igreja.Eu brinco, mas é verdade. O que se percebe deixa transparecer parecendo que criamos inúmeros hospitais chamados mídia, para curar as dores do povo, mas na hora faltou médico e há porteiros operando e receitando... Há gente despreparada dando aulas e cursos de matéria que não estudaram. A preocupação da igreja é pedir aos jovens que estudem. Sejam especialistas na doutrina católica e não apenas na RCC. Sejam-no também nas doutrinas e nas encíclicas dos papas, nos documentos da igreja do Brasil e mostrem-se especialistas em antropologia porque vocês lidam com o ser humano. Queiram o tempo todo e em conhecer o nosso povo. Isto seria ótimo, porque vocês falam a milhões de ouvidos. Eu sonho ver muitos de vocês nas lideranças de comunidades; vereadores, deputados e tentando como católicos que conhecem a dor do povo ser porta-vozes dele com essa espiritualidade bonita que vivem. Vocês têm o que dar, mas, dão muito pouco, comparado ao poder de comunicação que conseguiram. Não tenho medo de repetir o que disse.
Às vezes, alguns de vocês falam duas horas e não são capazes de citar um documento da Igreja. Olhem que acusação grave que eu estou lhes fazendo. É que eu sou estudioso de comunicação religiosa e gravo os programas. Alguns de vocês com enorme cultura não têm programas de rádio. Porque não? Porque deixam isso a outros que sabem tão pouco? Você escuta o sujeito falando duas horas e ele não consegue citar um documento da igreja, uma encíclica, nem a última mensagem do papa que até repercutiu na mídia. O que ele ou ela fala? Só temas particulares da RCC ou frases bíblicas meio jogadas a esmo. Imaginem se esse moço ou essa moça que tem tão poderoso veículo nas mãos, e fala todo dia a milhões de ouvidos, viesse com os textos catequéticos da sua igreja? Imaginem se eles fossem especialistas em doutrina católica. Como seria bom para o país! E a RCC não perderia nada da sua espiritualidade. Só ganharia! Vocês vieram para renovar, não é?


VIM DESAFIÁ-LOS

Por isso, quando me chamaram para aqui eu disse: - Estou indo falar a uma experiência de igreja fortíssima, espalhada pelo Brasil inteiro. Estou indo mexer com uma das experiências de igreja que mais nos têm dado comunicadores, músicos e instrumentos de comunicação. Estou indo falar a gente que faz acontecer.
Então, direi a eles que está faltando mais solidez de doutrina católica para darmos a esse país um pensamento católico. Só um pensamento carismático não basta. Se eu der só o pensamento dehoniano, eu não estarei dando ao meu país aquilo de que o país e a igreja precisa. Eu tenho que ir além da minha congregação religiosa. Você tem que ir além do seu movimento. Não pode ficar preso nele! Se um franciscano der só um pensamento franciscano, não está dando o suficiente embora seja uma vivência que nos deu centenas de santos. Todos temos que ir além de nossos grupos e comunidades. E vocês também precisam ir além da RCC. Ela é o trampolim, mas, depois, devem buscar profundidade na doutrina profunda e sólida da Igreja para que possam ser verdadeiramente mestres de doutrina católica. Além dos carismas bonitos que vocês vivem vocês poderão ser mestres e catequistas. Não tem que ser doutor. Tem que ser leitor.
Pra encerrar, a família brasileira está assustada, encurralada, perplexa. Os pais não estão sabendo como chegar aos filhos. A televisão todo dia nos provoca. Não é que ela esteja errada em tudo, mas, algumas vezes sim, certamente. Essa provocação não é enfrentada porque nós não temos gente com solidez, nem no Congresso, - embora haja muitos congressistas católicos, - nem em outros lugares. Se tivéssemos essa solidez não teríamos perdido por 6 x 5 na questão da manipulação do embrião. Teríamos influído muito mais porque somos 74% da população. E teríamos, certamente, se fôssemos todos instruídos na doutrina católica, criado uma mentalidade que impedisse essa votação de 6x5. Nós defendemos a vida até as últimas conseqüências. Mas, quando nos passaram esta lei pela garganta ficamos quietos, talvez, porque não sejamos catequistas. Mas, devíamos ser! Esquecemos o exemplo de Eleazar, do livro dos Macabeus que foi catequista de primeira linha. Segundo diz a Bíblia Católica, - este livro não está em Bíblias de outras igrejas por ter sido escrito em grego-, ele era um velho bonito e querido. Foi morto, mas não traiu a catequese e a doutrina que tinha aprendido. Por que? Ele era catequista e era sólido. Ele acreditava no que ele ensinava e deu a vida para não mentir para os mais jovens. Não fingiu come carne proibida para escapar à morte. O rei queria isso. Se dobrasse catequista Eleazar teria dobrado milhares de jovens. Como ele houve muitos que no Brasil e no mundo deram a vida por aquilo em que acreditavam.
Se nós formos capazes disso, poderemos dizer: Tenho minhas falhas, mas sou sólido. Graças a Deus, como Paulo, eu sei em quem acreditei e conheço o que a Igreja diz. Graças a Deus ele me deu um pé firme, um matrimônio firme, caminho firme, porque eu me situei. É este tipo de católico que eu quero ser, com esta espiritualidade que escolhi. Tenho um irmão que é de outra espiritualidade, mas ele também é firme na sua fé. Vamos caminhar juntos. Cada um com seu carisma. Mas, nós juntos teremos mais força. Se não conseguimos ver a luz de Deus um no outro e se tivermos medo de ler o livro do outro, de escutar o outro então nós não seremos fortes.
Parabéns a vocês que me convidaram aqui, sabendo que eu não sou da RCC. Mas saibam que amo vocês e os admiro. Concordo e discordo. Mais concordo do que discordo. Sei que muitos pensam o mesmo de mim. Em muitos aspectos vocês são maravilhosos. É esta igreja que queremos construir, na qual todos que tem algo a dizer, dizem e são ouvidos. Irmãos de outros movimentos que quiserem aprender com vocês terão o que aprender. Vocês conosco! Vocês vivem o que não vivemos e nós vivemos o que vocês não vivem. Carismas são isso.Juntos vamos enriquecer a igreja como um buquê de flores, porque a santidade está espalhada por toda a igreja. Só falta juntá-la e fazer dela a força de uma igreja de mártires, de mestres, de alunos, de aprendizes e de missionários. Se isto acontecer louvado seja Deus. Os primeiros passos estão sendo dados. Juntos, catequistas, com um pensamento sólido. Especialistas em doutrina católica. Seria isso pedir demais? Fiquem com Deus e o Senhor os abençoe sempre!

Pe Zezinho, scj

29 de novembro de 2008

A Catequese depois de Aparecida

Bem vindos a este encontro comigo. Espero que também eu seja bem vindo a este encontro com vocês. Serei franco e espero ser compreendido. Venho fazer pensar e não apenas criticar. Mas serei apologético como pede o número 229 do Documento de Aparecida, até porque todas as críticas que fizer servirão também para mim que milito há mais de 40 anos na mídia e na catequese católica.

Diz o número citado:
DOCUMENTO DE APARECIDA Nº 229

HOJE SE FAZ NECESSÁRIO REABILITAR A AUTÊNTICA APOLOGÉTICA QUE FAZIAM OS PAIS DA IGREJA COMO EXPLICAÇÃO DA FÉ. A APOLOGÉTICA N ÃO TEM POR QUE SE NEGATIVA OU MERAMENTE DEFENSIVA PER SE. IMPLICA, NA VERDADE , A CAPACIDAD E DE DIZER O QUE ESTÁ NAS NOSSAS MENTES E CORAÇÕES DE FORMA CALRA E CONVINCENTE, COMO DIZ SÃO PAULO, “FAZENDO A VERDADE NA CARIDADE” ( EF 4,15) MAIS DO QUE NUNCA OS DISCÍPULOS E MISSIONÁRIOS DE CRISTO DE HOJE, NECESSITAM DE UMA APOLOGÉTICA RENOVADA PARA QUE TODOS POSSAM TER VIDA NELE.


O debate precisa começar em casa. Uma sadia correção fraterna e sem ofensas nem melindres certamente melhoraria nossos púlpitos. Hoje, qualquer um pode pregar e dizer o que bem entende que ninguém o questiona. Igreja precisa voltar a questionar os seus catequistas e pregadores. Isso está no Documento de Aparecida como uma das primeiras lições. Sugiro que depois leiam os números 11 e 12 do mencionado documento. Expresso a minha alegria de poder falar a vocês sobre um tema que me tem sido caro desde meus primeiros meses de sacerdote. A catequese me levou ao púlpíto, às revistas, a sala de aulas, ao rádio, à televisão, aos livros, aos CD´s, à Pastoral da Juventude, das famílias e da comunicação. Como o trabalho das mães, a missão do catequista não tem prazo para terminar. Seremos eternamente discípulos missionários, missionários discípulos, discípulos e missionários. Viveremos até os noventa anos se a lucidez no-lo permitir entre o púlpito e a sala de aula: mestres aqui, aprendizes ali.
Falar a estudantes de teologia deveria ser isso: mostrar a carteira onde ela ainda existe e o púlpito, onde ele ainda existe. É aprender questionar e aprofundar os púlpitos, as salas de catequese, os alunos e os pregadores.Mais a estes e menos ao povo. É ali à frente de ouvidos sequiosos que repercute e se amplia a ortodoxia e é também ali que nasce a heresia.
Vamos ao tema. Quando 22 canais de televisão exclusivamente religiosos transitem catequese ao país, quando praticamente 10 famílias compreendendo casal, pais e filhos e cunhados falam a mais de 60 milhões de brasileiros porque a concessão do canal está nas mãos deles, quando d parte de algumas igrejas, roupas caras, ternos alinhados, gravatas, cabelos impecavelmente penteados, e da parte de outras roupas do Século XIII, rica sou pobres, jeans, camisetas ocupam a cena, eles estão querendo vestir sua mensagem. Quando a cada semana aparecem novos óleos, perfumes, pontes da esperança, grutas dos milagres, portais da graça, águas do Jordão, cruzes com terra da Palestina, kits de 13 medalhas alguém está querendo dizer algo através daquele símbolo. Alguém está desenvolvendo uma catequese visual. E o que estão a dizer com seus símbolos? Será que eles sabem porque se parecem com os monges da idade média, pro que raspam os cabelos, por andam de pés no chão ou de botas reluzentes? Se sabem, é catequese. Querem repercutir Jesus daquele jeito. Se não sabem não é! É nova roupagem, mas não é nossa mensagem, troca de aros , mas não troca de lentes para ver melhor.


Ario, Nestório, Donato, Montano, Atanásio, Thomas de Aquino, Duns Scotus, Anselomo de Cantuária falaram de cátedras, de sacadas, de púlpitos e na rua. Falaram ao povo, aos doutos e aos jovens. Formar sacerdotes e leigos fiéis à catequese da Igreja, conhecedores das cruzes e dos sofrimentos que cada dogma custou à Igreja e,em tempos competitivos como os nossos prepará-los para uma catequese apologética serena e firme é missão de todo e qualquer curso de teologia. Alguns de vocês serão licenciados ou doutores. Os outros, mesmo sem títulos, precisarão saber o mínimo necessário para postar-se diante daquelas câmeras e daqueles microfones que são os púlpítos de agora.


Hesíodo, no Século VIII a.C., em Teogonias e em Os Trabalhos e os Dias: pregava aos crentes gregos do seu tempo a sua catequese sobre o valor de crer nos deuses, dos freios morais contra o personalismo e o individualismo. Ele previa um ser humano narcisista, fechado em si mesmo, incapaz de família e de pátria, ocupado demais em fazer dinheiro e aparecer mais do que os outros. Previa que o fim da humanidade, caso não haja mudanças será causado pela egolatria: eu demais!


Paulo, no início da Epístola aos Romanos, em texto sobejamente conhecido de todos vocês, desenvolve uma catequese comportamental , ou seja, uma catequese de atitudes contra o “vale tudo” do seu tempo. Previa castigos e desequilíbrios gigantescos na estrutura da sociedade,. Porque isso se tornara não apenas desvio pessoal, mas se transformara em anti-catequese. Os sujeitos transgrediam e praticavam tudo aquilo e ainda ensinavam e incentivavam a transgredir. Imaginem se Paulo tivesse conhecido os canais de televisão e as marchas e paradas de hoje. Ainda bem que ele tinha Jesus e apesar de ser um homem de opinião e catequista exigente e até durão ele conhecia a fraqueza humana, coisa que nenhum catequista deve esquecer.


O que sugere o documento de Aparecida? A primeira noção que me veio da sua leitura é que os seus autores não nos querem cordeirinhos com o comportamento de manada gnus, arenques, golfinhos e diversas outras espécies. Cem a duzentos mil gnus atravessam as savanas africanas para lugares de pastagens liderados por uns poucos. Atropelam-se nos rios e são comidos por jacarés porque o instinto de chegar às verdes pastagens os leva a antes morrer na boca do jacarés do que a definhar de fome e de sede. Ele não têm pastores! Poucos líderes. São manadas desorganizadas. Seria disso que Ezequiel falava em 34,8 ?


8 Juro por minha vida - oráculo do Senhor Javé: Minhas ovelhas se tornaram presa fácil e servem de pasto para as feras selvagens. Elas não têm pastor, porque os meus pastores não se preocupam com o meu rebanho: ficam cuidando de si mesmos, em vez de cuidarem do meu rebanho


Seria disso que falava Jesus em Mateus 9, 35-37 ? A origem da missão

35 Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino, e curando todo tipo de doença e enfermidade.
36 Vendo as multidões, Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor.
37 Então Jesus disse a seus discípulos: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos!
38 Por isso, peçam ao dono da colheita que mande trabalhadores para a colheita.»

Os arenques, as enxovas, às vezes os golfinhos e as baleias, e pelo menos dez espécies de aves, peixes, cetáceos e animais terrestres assume comportamento semelhante de seguir seus líderes para a morte num penhasco, numa praia, ou rio acima. O que tem acontecido com nossos jovens, vítimas do HIV, da droga,da bebida, do cigarro, da violência, das mais diversas injustiças sociais lembra o grito de Isaias e de Jeremias: faltam pastores e pregadores que façam a diferença. E é disso que se ocupa o Documento de Aparecida, repercutindo a Catechese Tradendae.

Quem irá até eles? Quem interromperá este ciclo de suicídio, perda de referências, de non-sense e de morte? Educar para o encontro consigo mesmo, para a identidade, para o encontro com Cristo e para a conversão é a proposta da catequese que nos vem de Aparecida, com a agravante constatação de que agora, quase 30 anos depois de Puebla temos os meios que não tínhamos ontem, (mais de 300 veículos e 11 canais de televisão) mas ainda não achamos a linguagem. Ainda confundimos novas roupagens como nova linguagem ou pedagogia da repetição com mesmice.


Ainda não sabemos lidar com a riqueza dos símbolos católicos, que são altamente catequéticos, mas indevida ou insuficientemente manipulados sobretudo nas liturgias. Ainda não descobrimos a força da canção na catequese, e a importância de letras cultas ou populares, mas catequéticas, teológicas e doutrinais. Venceu a canção testemunhal, intimista, personalista que celebram os louvores e o encontro pessoal com Cristo, o que é bom , mas não é o suficiente. A canção católica ainda não é catequética. Repete a Bíblia, mas não a elabora, como fazem o CIC e os documentos da nossa fé. Os compositores católicos ainda são intimistas demais para serem catequistas. Põem melodia em textos bíblicos, o que é louvável, mas não colocam melodias nos documentos oficiais da catequese católica. O catecismo é pouco musicado.


Olhem a televisão católica e ouçam as canções que se canta nos templos e me digam se estou certo ou errado. Quantos dos que usam a televisão e a liturgia sabem lidar com os símbolos católicos? Não tem havido na mídia excesso de realce do celebrante em detrimento do realce da comunidade? Para onde os cameramen assestam suas câmeras? Quanto tempo elas ficam no celebrante quanto na assembléia e nos símbolos da fé?


Quem dispuser do Denzinger-Hünermann repasse a lista dos documentos sobre comunicação, sobre liturgia e canção e releia o Documento de Aparecida sob este prisma. Temos os instrumentos. Sabemos usá-los? Esta pergunta precisa ser feita primeiro por nós que já trabalhamos na mídia, depois a vocês que em poucos anos estarão lá, expondo-se, sendo vistos e ouvidos. Dirão o que? Falarão de si ou da Igreja? Lembrarão o testemunho dos mártires, educadores catequistas e confessores desses milênios de fé ou falarão demais de si mesmos, para vender discos, livros e obras que acabaram de escrever? Não cheira a simonia?
Afirmo que a catequese católica hoje no Brasil está excessivamente parcializada. É muito pouco enquirídica , abrangente, aberta ao todo e excessivamente léxica , seletiva, parcializada. Um grande número de catequistas não prega sobre o CIC, sobre a Bíblia e sobre os documentos da Fé e da Teologia Católica e sim sobre si mesmos, seu testemunho pessoal de conversão, ou sobre os temas de seu movimento, ignorando que vai pela Igreja em termos de exegese, novos enfoques teológicos. Vocês são privilegiados porque as editoras vêm aqui oferecer sues livros e os professores os indicam, mas quantos catequistas leigos e até seminaristas têm acesso a essa riqueza de conhecimentos e dela fazem uso quando falam? Prestem atenção aos programas de rádio e de televisão da nossa igreja e vejam e ouçam quantos falam com livros á sua frente, citando-os e recorrendo ás suas anotações? É justo alguém falar a milhões de ouvintes todos os duas coma pena suma Bíblia nas mãos quando o Papa e os Bispos acabaram de emitir mais 10 a 20 documentos em três anos sobre os novos enfoques da fé? Porque não são divulgados? Ou a catequese se reusem a ler Bíblia e comentar sempre do ponto de vista pessoal? Os livros existem! Porque não são lidos?


Sentir, entender, assumir o todo ou parcializar da fé e a catequese? Quero apenas isso de Deus? Vou só até aqui, Fico nesse tipo de fé que recebi do meu movimento preferido? Quero mais? Aceito ir mais fundo? Não me peça mais. Odeio livros, odeio ouvir os outros. Só aceito meu guru, meu pregador ,meu santo, meu catequista. Lê me deixa pra cima. Quem me questiona me deixa deprê!


Tais catequistas lembram o povo hebreu nos dias difíceis da travessia do deserto: Da próxima vez fala-nos tu, Moisés, Não queremos ouvir outra voz. Deus nos assusta.
Renovação da Aliança (Dt 5,23-31 e Dt 4, 32-40)

O Catecismo ( CIC ) propõe que se redijam catecismos locais e isso quer dizer que cada catequista tem que se basear também na catequese da sua diocese que supostamente também deve escrever os seus textos sempre em consonância com o CIC. Algumas dioceses o fizeram. Outras não têm pessoal especializado, mas para tal existem as editoras e as faculdades de teologia. A tarefa é pessoal, diocesana e comunitária.


IMEDIATISMO

O projeto pessoal e o imediatismo são os maiores inimigos da catequese.Falamos do que nos interessa mais do que o que interessa à Igreja. Pregamos o que nos agrada e não o que deve levar à solidariedade e ao mundo mais justo. Escolhemos os temas de acordo com o nosso apetite de pregar e não com a fome do ouvintes.

No últimos 50 anos houve mais de 30 explosões de vulcões com aproximadamente 700 mil vítimas: Peru, Itália, China, Paquistão, Santa Helena, Alaska, Rússia, Estados Unidos. O de Santa Helena matou poucas pessoas porque foi previsto, mas destruiu o equivalente a 500 bombas de Hiroshima. Seria como se uma explosão em Campos do Jordão cobrisse com dez metros de cinzas todo o vale do Paraíba e as praias de Ubatuba e Caraguatatuba e São Sebastião. Alguém lembra isso?

Duas bombas em Hiroshima e Nagasaki arrasaram duas cidades japonesas matando mais de 100 mil pessoas a curto e a longo prazo. Alguém lembra isso? Quem fez as bombas? Cientistas e políticos. Quem mandou jogar? Um presidente poderoso. Quem jogou ? Militares. O que dizem os religiosos de hoje? Alguém lembra isso? Afinal porque pregar sobre algo que aconteceu há 60 anos atrás? Porque ao assunto não interessa? Pregamos verdades que ensinam a vier e a não matar ou manchetes que vendem e que uma vez estampadas e esgotadas não se publica de novo? Porque voltar ao caso Isabela se já deu o que tinha que dar? Mas não mandamos todos os dias as pessoas porem as mãos no coração e entregar o seu coração para Jesus? Repetimos o que nos agrada repetir e omitimos o que não nos agrada lembrar. Mas o critério é o sentimento do catequista ou a doutrina?

Uma onda tsunami em 2004 matou mais de 250 mil pessoas. Quem ainda lembra isso? Quem ainda socorre os que perderam tudo naquela onda? Morreram mais de 40 milhões de pessoas nas ultimas guerras. Quem lembra isso? Povos inteiros foram dizimados e apagados do mapa. Quem prega sobre isso?

A história para muitos pregadores e catequistas parece ter começado com Jesus e depois pulado para hoje ou dois anos atrás. Ignora-se completamente nas pregações o que tem acontecido no mundo desde que estamos vivos. Prega-se sobre o hoje de 24 meses atrás ou o amanhã no céu e ignora-se a cruz e a dor humana de milhares de anos,as mais recentes, as imensas perdas de vidas causadas boa parte dela pela incúria dos governos que permitem que se viva naqueles lugares perigosos e pelos desperdícios de recursos que poderia aliviar aquele sofrimentos.
Os pregadores e cantores preferem acentuar os louvores e a glória do Senhor quando ao acento da cruz, da redenção e da solidariedade às vezes fica em terceiro plano.

Pregamos apenas sobre o que está a um passo dos nossos narizes. Não há perspectiva histórica, Vale mais a parusia do que o dia a dia. E vale mais o dia a dia do que o que aconteceu e o que acontecia. Nosso olhar não é abrangente. Nossa pregação é míope.

Depois de Aparecida precisamos dar o giro de 360 graus à nossa volta para vermos o que acontece no mundo antes de abrimos a boca no púlpito. O mundo sofre. Como acentua o Pe João Carlos Almeida, SCJ, no seu livro tese, sem uma “Teologia da Solidariedade”, é difícil falar em catequese. É que o outro existe e aquele que segundo Karl Barth e Karl Rahner é “o totalmente Outro” só nos aceitará no seu céu se tivermos prestado atenção no limitado e circunstancialmente outro que nos cerca.

Joseph Campbell em o Poder do Mito mostra as catequeses pagãs de incontáveis civilizações , todas elas, de uma forma ou de outra apontando para valores maiores e sonhos de solução das dores do aqui agora. Mostra também as alienações negativas de quem prega sem pregar e não se arrisca a encarar o magno problema da solidariedade. Disso os documentos de Igreja não fogem, nem o de Aparecida. Quem opta por uma catequese sem compaixão pelo pobre e pelo ferido no corpo e na alma o faz por própria conta e risco. Pregador que não ora e não ensina a orar, coloca-se fora da Igreja. Mas também o que não toca nem de leve no social foge à esfera do religioso católico. Nossa Igreja é essencialmente compassiva. Essencialmente compassiva, eu grifo!

Se o Documento aborda em 230 números o tema discípulos e missionários mostrando a importância deste enfoque, aborda em 238 deles os temas comunhão fraterna e comunidade, e certamente mais de 500 vezes a temática: valores, justiça solidariedade, promoção humana, missão que toda ela incide no item compaixão. Ou sofremos junto e nos solidarizamos ou não seremos discípulos e missionários e nossa catequese, por mais gente que arrebanhe, estará fada ao insucesso em poucos anos. Segundo São Paulo só a caridade sobreviverá a esta ordem das coisas. ( 1 Cor 13, 8-13)

Se queremos discípulos para este mundo preguemos uma catequese personalista cheia de promessas e recados do céu agora, já, como fazem os pregadores de rádio e televisão todos os dias. Não são tão modernos quanto parecem. Tiveram predecessores. A catequese da certeza, cheia e marketing do hoje, agora, já é altamente eficaz., Estamos vendo os seus frutos, como já os vimos no tempo de Donato, Ario e Montano que vinham com garantias de céu aqui e depois. As multidões corriam para aqueles pregadores que garantiam que o Espírito Santo e Jesus estavam agindo neles.

Se queremos uma catequese transversal que arrebanha filhos do céu , mesmo que não consigam aqui tudo o que sonham conseguir termos que pregar a justiça, a solidariedade, a transformação e a promoção humana, o levantamento do pobre e do marginalizado, a protagonização do que até hoje foi o último. Mircea Eliade, no seu Tratado da Historia das religiões , livro de História e Filosofia da Religião que imagino que vocês conheçam diz na página 370, número 172 que os símbolos não importa que civilização ou religião os tenha são sempre coerentes e sistemáticos. Abordam a metafísica da ascensão, são ritos ascensionais. Ajudam o ser humano a se tornar ele próprio um símbolo, uma parte do mistério que é o todo. Ele se sente incluído. O símbolo ajuda a buscar uma identidade. Em quem sabe ler os símbolos funcionam em harmonia o sagrado e o profano. Mas não só ele como Joseph Campbell alertam para o abuso do símbolo. É o caso do pregador e do presidente de assembléia ou catequista que não o conhecendo, aplica-o de maneira errada. Inventar partes da missa e criar novas cenas e gestos para as câmeras ou para o marketing da fé demonstra pouca cultura e pouca visão de povo de Deus. Pode ser um desvio gigantesco. Destrói a história, a coerência e o sistemático dos símbolos que sempre demandam gerações para se firmarem. Nem Roma nem Aparecida, nem o Franciscanismo aconteceram num gesto ou numa década. Vem o pregador e inventa um e o joga na liturgia ou na catequese. Pode dar certo e pode ser um pulo no precipício ou um encalhe na praia com milhares de gnus e golfinhos a segui-lo...

Luis Carlos Suzin e companheiros em TEOLOGIA PARA OUTRO MUNDO POSSÍVEL Paulinas, entram outra vez na globalização da solidariedade, da vida e da consciência universal, na questão das linguagens e na grande pergunta sobre qual a intenção de Deus para o mundo criado. È outra vez uma catequese abrangente, tipo medicina preventiva e não paliativa ou apenas curativa. A fé socorre o pobre antes que fique mais pobre e quando o encontra pobre e ferido cuida dele para devolvê-lo a si mesmo e à comunidade como cidadão prestante.
João Paulo II nas suas encíclicas Dives in Misericordia e Redemptor Hominis , retoma o tema do resgate da pessoa e diz nos números 9 e 10 da RH com outras palavras, que aquele que criou se, for preciso recria, como fez o oleiro com o vaso que se quebrou.Restaura.

Karen Armstrong com sua história comparativa das três grandes religiões do mundo em dois livros Uma História de Deus e Em Nome de Deus, aborda as catequeses dessas religiões que em alguns casos acertaram e em outros deixaram a desejar grandemente na questão da catequese solidária quando fizeram o jogo do opressor para não perder espaço político.

Karl Jung, Karl Sagan, Daniel Dennet confessos ateus ou agnósticos reconhecem o valor da religião por causa dos seus símbolos. Se os pregadores todos passassem por uma catequese dos símbolos errariam menos. O Documentos de Aparecida chama atenção para isso quando fala da comunicação, da mídia e do seu uso. Repete o que já foi dito no ano 2.000 dia 4 de junho sobre a Ética nos Meios de Comunicação.

Estudiosos ateus e cristãos, sobretudo nos tempos de mídia poderosa mergulharam de cheio no mistério de Deus, da procura de Deus, das perguntas e respostas dos povos, dos indivíduos que o buscaram e dos traços de Deus na História e acharam mais os traços deixados pelo homem à procura de Deus do que os de Deus à procura do homem. Incidiram no sociológico da fé. Tanto a busca como a revelação deixaram marcas. A catequese, por definição, é uma repercussão. Ainda hoje vamos lá ver os vestígios do Vesúvio, do Etna e do Santa Helena. A história humana está permeada de explosões de busca por Deus e da ação de Deus na História. A nossa época é uma dessas décadas cheias de erupções chamadas seitas, novas comunidades, novos movimentos religiosos e novas igrejas, tanto entre os muçulmanos, como entre os cristãos. Em cada esquina explode um novo templo, ou um novo programa de televisão, com alguém a dar uma nova mensagem, que desta vez, será a verdade mais verdadeira.

Filósofos da religião, historiadores da fé, teólogos, antropólogos, exegetas foram fundo para que o catequista simples e de poucos estudos tenha elementos para ensinar o fiel a refletir sobre todas a mensagens que recebe e colocá-las nas devidas pastas do seu saber e do seu viver. O nosso é um tempo de catequeses erráticas e emotivas, feitas por pregadores erráticos e emotivos, alguns deles histéricos, irados e ameaçadores. Mais do antes é preciso que o fiel evangelizado por catequistas serenos conheça o dom do discernimento.

Não basta ser discípulo, tem que ser discernido. Discípulo que não engole tudo , porque pergunta e quer saber por que! Além do mais uma das novidades do Documento de Aparecida é a proposta de uma catequese apologética madura do tipo Eu não ofendo, mas eu me defendo! O modo como estão falando contra nós na mídia secular por nossa defesa intransigente dos nossos valores e a catequese agressiva de algumas igrejas que não hesitam e dizer que não somos da luz e que estamos errados há séculos e eles certos há trinta anos, nos empurra para uma catequese mais explicitadora e apologética. Somos chamados a explicar nosso catolicismo na mídia, se preciso, em debate sereno.

Essa é mais uma novidade no documento de Aparecida. Discernimento! São muitos os nomes dos pensadores que nos ajudaram a ajudam a discernir, virtude sem a qual nenhuma catequese é lúcida. Conhecemos, mais ou menos de ouvir falar, uns quinhentos. Os livros nos mostram dezenas de milhares que se ocuparam da catequese, seja como filósofos, antropólogos, teólogos ou comunicadores da fé. Eles ou ajudam ou atrapalham o pregador popular. Certamente mais ajudam do que atrapalham porque provocam o pregador sem muito estudo e avesso a leituras a pensar melhor no que afirma: que Deus lhe disse alguma coisa naquela semana...

Uma igreja sem pregadores populares seria um fracasso, mas sem os teólogos, com seus 30 a 40 anos de pesquisas, seria um fracasso ainda maior. Seria uma igreja sem conteúdo e sem profundidade, com gente sem catequese ou leitura, repetindo palavras de ordem e slogans, mas quase nenhuma teologia! Foi isso o que Dietrich Bonhoeffer, um mártir judeu, vítima do nazismo, disse em Cartas da Prisão a respeito dos nazistas: viviam de repetição e de frases feitas. Não pensavam; repetiam palavras e frases pré-fabricadas.

Atanásio, Jerônimo, Tertuliano, os já citados Ario, Donato, Montano, Efrém Thomas de Aquino, Alberto Magno, Lutero, Henrqiue VIII, Calvino, Karl Barth e Karl Rahner, Edward Schillebeeckx, Hans Ur von Blathazar, Hans Kung, José Ratzinger,Dietrich Bonhoeffer, Rudolf Bultmann, Martin Buber Leonard Boff, Gustavo Gutierrez, Hugo Assman, Roger Haight marcaram os eu tempo e forma marcados por suas disputas teológicas. O que há em comum neles embora de comportamento e respostas tão diferenciadas?

Sabiam que estavam errados? Não sabiam? Não perceberam aonde iria dar a sua disputa pelo certo sobre a fé? Eram sinceros? Não eram? Suas vidas nem sempre combinaram com sua catequese? Com alguns tudo tinha que ser do jeito deles. Eram polemistas e agressivos. Outros eram suaves ou fortes, dialogantes ou provocadores. Todos fizeram catequese, todos lutaram por seu ponto de vista. Todos pagaram o seu preço, todos fizeram adeptos e seguidores,q eu em alguns casos foram mais longe do que seus mestres.

Catequistas um contra o outro e um com o outro, mostram que a catequese suscita paixões. Outra vez convém citar o 229 de Documento de Aparecida. Debater é preciso, pois não é justo que qualquer um despreparado use aqueles microfones e diga o que lhe vem na cabeça, jogando a catequese de volta aos anos 30 ou 40, quando a Igreja fez enormes conquistas no campo da psicologia e da sociologia da comunicação e da catequese.

Não tenham medo e evangelizar. Isto supõe algum conflito fraterno porque pede uma certa apologética que o número 229 propõe que seja usada. O Documento fala de conversão pessoal e conversão pastoral. E a conversão dói primeiro no pregador, que precisa, segundo a feliz mística dos comunicadores Paulinos e Paulinas: viver em contínua conversão.

Teremos, sim, que mudar nossa comunicação e nossos métodos; controlar mais os nossos comunicadores na mídia. Final,m falam em nom da nossa Igreja. Que certificado ou diploma receberam para pregar o que pregam? Alguns estão lá como os porteiros de hospital que na falta de médicos andam passando receitas e operando o povo. Não estudaram catequese o suficiente para estar onde estão. Boa vontade e unção apenas, não bastam. É preciso um mínimo de conhecimento; Não precisam ser doutores mas precisam ser leitores. O pior acontece quando quem não sabe catequese ou teologia decide quem pode e quem não pode falar na emissora de rádio por ele ou por ela dirigida. Precisamos de coragem e discernimento para brigar pelo conteúdo da nossa catequese. No papel ele existe. Na realidade ele está nas mãos de muitos pregadores não catequistas. Exija-se um curso de catequese de cada um que trabalha na mídia. Como se exige da enfermeira ou do técnico de computação.

A vocação discípulo-missionário supõe esta humildade de aprender conteúdos e técnicas. Nem só um nem só o outro. A catequese vai doer em vocês como dói nos nossos povos. A Palavra suaviza, mas corta e dói. A Nova Evangelização está indo devagar demais por culpa de nossa incapacidade de aprender ou de nos deixarmos corrigir. Em alguns lugares é imprudente demais. Não estamos vendo ainda o rosto de Cristo no povo latino americano. Ainda falta muito a catequese de conversão e a de doutrina social nas nossas transmissões. O problema está da nossa ótica e não do rosto do nosso povo. Quando só vemos o que queremos acabamos pregando o que queremos e não o que vimos.

O fato é que a partir do número 226 , lemos que, como catequistas, precisaremos de mais experiência religiosa; mais vivencia comunitária, mais formação bíblico-doutrinal , mais compromisso missionário e mais diálogo ecumênico PARA QUE O MUNDO CREIA. Nenhuma dessas propostas é fácil.

Reabilitar a autêntica apologética ( 229 ) será um martírio corajoso. Teremos que rememorar quem deu a vida e a entregou pelo Reino. Teremos que assumir uma catequese mais provocadora e mais profunda contra uma catequese light. Ser contemplativo e estudioso da fé exige muito mais martírio. A proposta é melhorar a catequese de iniciação, a catequese contextualizada que respeita os processos nº 281, a catequese de acompanhamento, e isto exige um mínimo de cultura do catequista, porque cultura subentende estudo cansativo e presença de risco. Se dói no povo, que doa em nós. A nós não é permitido ficar comendo pipoca diante da televisão em confortáveis poltronas quando a Igreja nos convoca para ir lá onde alguém está pedindo mais água e mais esgoto. Não se adquire cultura apenas tocando violão e dançando com o povo. Temos que estudar este povo. Será uma catequese cheia de iniciativas, mas obediente ao todo da Igreja

A proposta é evitar o sectarismo perigoso, a parcialização da fé que só lê o trecho documento que nos agrada e omite os outros trechos da CNBB ou do Papa que nosso grupo não vê como urgente para nós. Também somos chamados a viver a exigente e humilde catequese de diálogo ecumênico. Somos chamados ao uso correto, não personalista e equilibrado da mídia, fugindo ao estrelismo e à tentação de individualismo exagerado onde se privilegia mais o projeto pessoal que o da Igreja, da diocese ou da Congregação à qual aderimos. Como podem ver, estamos numa nova fase da Comunicação da Fé Católica no Brasil. A proposta foi feita. De nós depende levá-la a sério ou prosseguir no que sempre fizemos, sem conversão pessoal ou pastoral. Mas aí não seríamos discípulos e missionários! Estaríamos em campo, indiferentes ou contrariados e vestindo camisa de outro time!

Pe Zezinho, scj